ALMAS GÊMEAS
EM BUSCA DA LUZ
Dulce Regina
Edição Digital - Smashwords Edition
"Copyright @ by Dulce Regina da Silva, 2010, São Paulo, Brazil
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida sem prévia autorização legal da autora.
All rights reserved. Without limiting the rights under copyright reserved above, no part of this publication may be reproduced, stored in or introduced into a retrieval system, or transmitted, in any form, or by any means (electronic, mechanical, photocopying, recording, or otherwise) without the prior written permission of both the copyright owner and the above publisher of this book.
Descubra outros títulos da autora / Discover other titles at:
www.smashwords.com/profile/view/dulceregina
Smashwords Edition, License Notes
Este livro é licenciado para seu uso pessoal e não deve ser revendido ou cedido a outra pessoa. Caso queira compartilhá-lo, por favor efetue nova compra para cada pessoa.Se você está lendo este livro porém não o comprou ou ele não foi comprado somente para seu uso, por favor vá ao site Smashwords.com e adquira sua própria cópia. Agradecemos por respeitar o trabalho da autora.
This ebook is licensed for your personal enjoyment only. This ebook may not be re-sold or givenaway to other people. If you would like to share this book with another person, please purchase an additional copy for each person. If you’re reading this book and did not purchase it, or it was not purchased for your use only, then please return to Smashwords.com and purchase your owncopy. Thank you for respecting the hard work of this author.
*.*.*.*.*.*
ORAÇÃO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS
Senhor, fazei de mim um instrumento da Vossa paz!
Onde houver ódio, fazei com que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão;
Onde houver discórdia, que eu leve a união;
Onde houver dúvidas, que eu leve a fé;
Onde houver erros, que eu leve a verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a luz.
Ó Mestre, fazei com que eu procure mais:
Consolar, a ser consolado;
Compreender, a ser compreendido;
Amar, a ser amado.
Pois é dando que se recebe;
É perdoando que se é perdoado;
E é morrendo que se vive para a vida eterna!
ÍNDICE
Oração de São Francisco de Assis
Uma Mensageira de Amor na Terra
Almas Gémeas: Lúcia/Ângelo-Dulce/Lucas
Algumas histórias de Almas Gémeas
O reencontro com os meus filhos
No Brasil, com Francisco e Clara
Francisco e Clara irradiando Amor
Um pouco de história... e as comprovações astrológicas
Descobrindo a energia de Francisco e Clara em Taubaté
Meditação: a Transformação Interior
Meditação: Libertação do Karma
Ritual do Encontro com a Alma Gémea
Lúcia e Ângelo: um amor eterno
O Renascimento da energia do Amor na Terra
AGRADECIMENTOS
Aos meus Mestres e irmãos de Luz,
Santa Clara e São Francisco,
por me terem ensinado a magia do Amor
entre as Almas Gémeas...
Santa Clara, minha Mestra,
Agradeço-vos por me terdes auxiliado nesta Missão de Amor na Terra e me terdes dotado dessa energia milagrosa sem a qual eu nada seria e sem a qual já não saberia viver.
A Vossa Luz ensinou-me a transcender o amor físico em benefício do Amor espiritual.
A Vossa dedicação ao próximo auxiliou-me a amar todos os seres como a mim mesma, com generosidade e paciência.
Através da Vossa vibração divina, sou iluminada no meu trabalho de Amor, acreditando que só este sentimento superior poderá transformar a Humanidade.
Santa Clara: iluminai e clareai a mente das pessoas que lerem este livro, para que tenham o privilégio de reencontrar a sua Alma Gémea na Terra.
Ensinai a nós, seres humanos, o verdadeiro Amor, que nada pede, apenas dá...
São Francisco, meu Mestre
agradeço-vos a Vossa paciência e Amor ao orientardes-me espiritualmente na redacção deste livro.
Obrigada por me terdes levado a Assisi, a Vossa cidade santa, e por todas as revelações que tive depois de visitar o Santuário do Monte La Verna. Sinto que a Vossa Luz me acompanhou, e ainda me acompanha, em cada instante da noite e do dia.
Mestre querido, muito obrigada pelos ensinamentos que transmitistes ao espírito de Lucas, minha Alma Gémea.
São Francisco, ajudai-me a agir conforme os Vossos ensinamentos, que são os mesmos de Jesus, e a praticar efectivamente as Vossas orações no meu dia-a-dia.
E auxiliai-me a agradecer a tudo e a todos os que passaram pela minha vida.
Mestre, projectai sempre em mim a Vossa humildade, compreensão e Amor.
Agradeço a Santa Clara e a São Francisco pela minha vida...
*.*.*.*.*.*
UMA MENSAGEIRA DE AMOR NA TERRA
AMOR. Esta tem sido a mola propulsora do trabalho pioneiro realizado pela aquariana Dulce Regina no Brasil desde o início dos anos 80. De facto, para entender o forte significado do sentimento que a ligava a um homem, ela mergulhou no estudo das relações entre as Almas Gémeas, da Astrologia Kármica e da Regressão a Vidas Passadas, encontrando o elo de ligação entre essas áreas do conhecimento e da experiência humana. Ao mesmo tempo, num trabalho consciente e profundo de busca interior, trilhou por mais de uma vez os caminhos percorridos pelo seu espírito através do tempo, relacionando as situações de vidas passadas que influíram, e ainda influem, nesta existência. Conseguiu, dessa forma, expandir a sua percepção, sensibilidade e consciência; entrar em contacto com os seus Mestres Espirituais, entender e aceitar a sua Missão terrena e desenvolver uma técnica própria de aplicação do que tinha aprendido para distribuir a todos os seres humanos a energia do Amor que sempre emitiu para o homem amado – a sua Alma Gémea – ajudando-os a encontrar o equilíbrio espiritual, mental e físico.
Hoje, dezassete anos depois, ela soma no seu currículo a interpretação de mais de seis mil mapas e revoluções solares e o acompanhamento de sessões de Regressão a Vidas Passadas e de Limpeza Kármica de um número incontável de pessoas espalhadas por várias cidades do Brasil e do estrangeiro, em particular de Portugal. Além disso, tem sido convidada para conferências e cursos em centros de estudos e livrarias especializadas, entrevistas para jornais, revistas e programas de televisão. Deste modo, cumpre também mais uma parte da sua Missão: a divulgação da mensagem de um Amor Maior e o ensinamento de técnicas e exercícios que auxiliam as pessoas no processo de autoconhecimento e crescimento espiritual.
Diariamente, essa Mensageira estende a mão a pessoas de todas as idades, origens e culturas para as acompanhar em viagens de regresso a outras vidas. Por experiência própria, sabe que esse é o único caminho capaz de dar respostas às eternas dúvidas do ser humano: quem sou eu? O que faço aqui? Porquê tanto sofrimento? Mais do que isso, Dulce Regina acredita que esse é o único meio de que dispomos para dissolver padrões espirituais negativos, transformá-los em energia altamente positiva, descobrir a nossa missão nesta vida, tornarmo-nos realmente agentes do nosso desenvolvimento espiritual e prepararmo-nos para o encontro, na LUZ, com a nossa Alma Gémea.
CORAGEM. Atributo dos fortes e dos guerreiros, e parte integrante da personalidade de Dulce Regina, permitiu-lhe despir-se de falsos pudores e expor publicamente a sua história no livro Alma Gémea: o Encontro e a Busca. Revelou, desta forma, tudo o que sentiu e o que viveu a partir de Março de 1968, quando conheceu Lucas, a sua Alma Gémea: os tempos de namoro, a opção de se afastar dele, a união com Marco António, assumindo como seus os filhos do primeiro matrimónio do seu marido, Carolina e Felipe, o nascimento dos seus próprios filhos, Michel e Ana, o reencontro com Lucas e o reconhecimento de que ele era o seu Complemento Divino, o início do seu trabalho de ajuda aos outros, o desenvolvimento dos seus estudos de Astrologia e Regressões a Vidas Passadas, o final do seu casamento e mais uma separação de Lucas.
No entanto, o Amor que ela sentiu e ainda sente pela sua Alma Gémea não só resistiu ao tempo como, transformado em livro, atravessou fronteiras – foi editado em Portugal e está a ser traduzido para espanhol – e acabou por mudar também a vida de milhares de pessoas que, através da sua leitura, sentiram alívio, paz e esperança, identificando-se com a autora na crença de um afecto puro e desinteressado.
E foi mais uma vez a coragem que levou Dulce a idealizar e escrever outro livro: este que tem agora nas suas mãos. Ainda que traga de volta algumas das personagens» da obra anterior – como Lucas, Marco António, a própria Dulce Regina e os seus filhos Michel, Ana, Carolina e Felipe –, Almas Gémeas em Busca da Luz não constitui uma continuação do primeiro, mas representa, sem dúvida, um aprofundamento dos temas expostos anteriormente e introduz a história de duas personalidades marcantes, não só na existência da autora, mas de toda a Humanidade: São Francisco e Santa Clara, Almas Gémeas na Luz e o mais extraordinário exemplo da transcendência da matéria e da crença num Amor Maior.
FÉ. É o que move Dulce Regina: fé nos seus Mestres, nos Seres de Luz que a acompanham no trabalho que realiza, na capacidade de cada ser humano para superar as suas dificuldades, transformando as tristeza em alegria, o desespero em tranquilidade, a dor em paz.
E é porque tem Amor ao próximo e a si mesma, Coragem para assumir os seus sentimentos e Fé na orientação dos seus Mestres e na im-portância do seu trabalho, que Dulce Regina continua a abrir o coração e a divulgar tudo aquilo que sente e em que acredita, semeando a reflexão e a vontade de transformação em todos os que leram o seu primeiro livro e tiveram o privilégio de a conhecer pessoalmente.
Eu fui uma dessas pessoas. Desde a primeira vez que a vi, no início de Dezembro de 1995, passei não só por um extraordinário processo de transformação interna e externa – fruto de Regressões a Vidas Passadas, Limpezas Kármicas e da minha convivência com a astróloga e escritora –, como aprendi a confiar nos nossos Mestres e na força de Dulce. Em Março de 1996, convidada por ela para participar das pesquisas que resultariam neste livro, aceitei imediatamente, na certeza de que não se tratava apenas de mais um desafio profissional como tantos outros que enfrentei. Sabia, desde o começo, que ajudá-la a divulgar a sua importante mensagem de Amor era parte da minha Missão. Mas não podia imaginar que naquele momento se iniciava uma verdadeira e inesquecível aventura. Sim, porque conviver com Dulce e trabalhar com ela é uma aventura na qual se misturam doses maciças de emoção, surpresas e suspense.
Durante os quinze meses dedicados à elaboração deste livro, por exemplo, estivemos muito próximas. Fizemos inúmeras viagens – inclusive a Assisi e ao Monte La Verna, em Itália –, passámos quase todos os fins-de-semana e feriados juntas, discutimos exaustivamente a vida na comunidade franciscana no início do século xiii, acompanhei as suas regressões a essa época histórica, conversámos sobre as suas dúvidas e fui testemunha de inúmeros factos que comprovavam o acerto das suas percepções e visões. No início, essas confirmações deixavam-me perplexa; muitas vezes, assim que Dulce expressava uma intuição ou pedia aos seus Mestres um esclarecimento, recebíamos um sinal claro e inquestionável de que estava no caminho certo. Aos poucos, as coincidências» começaram a fazer parte do nosso quotidiano, deixaram de me surpreender e passei a aceitá-las com a mesma naturalidade com que Dulce as recebe.
E ao terminar este livro devo reconhecer que sou uma pessoa melhor e mais rica interiormente. Entendo agora os motivos que levam milhares de pessoas a escrever, telefonar ou procurar Dulce apenas para lhe agradecer a sua ajuda. E entre todas essas vozes faço questão de colocar também a minha. Muito obrigada, Dulce Regina.
Sheila Mazzolenis
Junho de 1997
*.*.*.*.*.*
ALMAS GÊMEAS:
Lúcia/Ângelo - Dulce/Lucas
Inúmeras vezes, através dos tempos,
os espíritos das Almas Gémeas encontram-se
na Terra num processo de evolução
constante em direcção à Luz.
Esta é a história de dois
dos muitos encontros entre as duas partes
de um mesmo casal cósmico.
O primeiro ocorreu no início do século xiii,
e o segundo, neste final de milénio.
LEMBRANÇAS DE UMA VIDA PASSADA
Ao ser desfeita a bruma que esconde
o passado, emergem factos
que explicam o presente...
Num fim-de-semana de 1994, dirigi-me silenciosamente até ao alto de uma suave colina na fazenda de uma amiga, em São Carlos, no interior paulista. Buscava a sombra dos grandes eucaliptos, um contacto mais estreito com a Natureza e a paz no silêncio dos campos, desejando adquirir forças para continuar a minha busca interior e entender mais profundamente a minha intensa ligação com Lucas – o homem amado, a minha Alma Gémea, o meu Complemento Divino.
E desejava, também, achar um lugar propício para um encontro muito especial comigo mesma e com os meus Mestres, pois precisava de orientação. Só assim, acreditava eu – e continuo a acreditar –, conseguiria entender as situações por que estava a passar. Essa não era a primeira, nem seria a última vez, que me isolava para mais facilmente escutar a minha voz interior e receber as emanações de Luz do Plano Espiritual. Quando finalmente achei o lugar que procurava, tirei os sapatos, sentei--me na erva macia e aguardei até que a minha respiração – ofegante pelo esforço da caminhada – normalizasse. Como faço sempre nessas ocasiões, invoquei a protecção dos meus Mestres e pedi-lhes humildemente que me ajudassem a entrar em contacto com o meu Eu Superior e a encontrar as respostas para as dúvidas, dores e inquietações que nos últimos dias me desarmonizavam, impedindo-me de cumprir plenamente a minha Missão, como sempre fizera. Como poderia transmitir amor, partilhar a dor dos outros, auxiliá-los a transmutar energias negativas do passado, se eu não conseguia dar amor a mim mesma e me encontrava manietada pelos laços da minha própria aflição e passado? Era imperativo encontrar uma resposta; era vital receber orientação e esclarecimentos. Ao meu lado, a minha amiga Glória auxiliava-me nesse processo de retorno a uma vida passada.
Lentamente, acalmei os conflitos interiores e coloquei-me à disposição dos meus Mestres, sentindo o corpo cada vez mais relaxado e sensível ao ambiente que me cercava. A brisa tornou-se fresca, o ar mais leve e um perfume delicado a flores e frutos encheu-me os pulmões. Era bom, muito bom, estar no alto de uma montanha... Montanha? E a colina que eu tinha subido poucos minutos atrás? Já não existia, nem existiam os eucaliptos, São Paulo, Brasil. Sem que percebesse, o meu espírito já tinha voltado ao passado... O tempo era outro, outro também era o lugar em que me encontrava e até mesmo o meu corpo se tinha transformado...
Ano de 1218. Assisi, Itália
É noite. A luz das velas e das lamparinas ilumina a pequena sala em que onze jovens ouvem embevecidas as palavras de uma bela mulher sentada num monte de lenha. Entre elas, eu, a Clarissa Lúcia, enrolada num cobertor fino, deitada aos seus pés, próxima das outras irmãs de Fé. Algumas estão re-costadas, outras pousam a cabeça na palha; seja qual for a posição, estamos muito próximas umas das outras, mas o frio que queremos vencer com o calor dos nossos corpos foi esquecido graças a uma história que já conhecemos, mas que não nos cansamos de ouvir. A história de Clara – este é o nome da narradora de voz suave e gestos delicados, nossa mestra, mãe, irmã e protectora – e Francisco, um exemplo de Amor Incondicional.
Atendendo aos nossos pedidos, ela fala sobre a primeira vez em que olhou bem dentro dos olhos daquele homem que representa tudo para ela: o pai que a protege e ajuda; o filho que às vezes precisa da sua atenção, orientação e carinho; o amigo de todas as horas, presente mesmo quando está distante; o irmão leal; e, principalmente, o mestre, que ensina com palavras que não são da Terra e com atitudes que desafiam todos os que não acreditam no caminho espiritual. Clara conta a emoção sentida no encontro que mudou a sua vida, narra as suas escapadelas de casa só para o ouvir e aprender, a sua vontade de também ser pura e boa como ele, e confessa a sua imensa tristeza quando todos lhe chamavam louco – ela sabia que ele não era louco! Conhecia-o melhor do que qualquer um dos onze companheiros que o seguiam e era até mesmo capaz de dizer o que aquele homem, que tinha abandonado a riqueza para abraçar a pobreza, pensava ou sentia no fundo do seu coração. Ficávamos sempre comovidas com a intensidade desse Amor Incondicional e espiritual, tão forte e transcendente que é capaz de transmitir brilho e esperança mesmo quando é lembrado apenas por uma de nós. E quando Clara fala, o aposento de pedras enegrecidas fica mais iluminado. A sua voz adquire uma musicalidade celestial, o seu corpo parece flutuar no ar e as pontas dos seus dedos emitem raios róseos subtilíssimos.
Muitas vezes adormecemos embaladas por essa história, os corpos aquecidos pela Luz desse Amor, a fome aplacada pelo alimento espiritual, a falta de conforto e as inquietações esquecidas, a saudade da família biológica banida dos nossos corações. Mas essa aflição não me atinge: eu não tenho família, nem lar. Esta comunidade de mulheres pobres é a minha família, esta casa é o meu lar – o único que conheço e o único que desejo, pois permite-me ser assistida por uma mãe amorosa como Clara e ficar o mais perto possível da energia física e espiritual de Frei Ângelo.
Companheiro de Francisco, Ângelo foi o íman que me atraiu a este lugar. Foi ele o responsável por eu ter abandonado a minha liberdade e das minhas vestes profanas, abraçando os ideais franciscanos de pobreza e doação. Por ele, descobri o Amor Maior, graças a ele aprendi a amar os meus semelhantes e também os animais, as plantas e as forças da Natureza.
Hoje, em meados de 1218, ele chama-se Frei Ângelo; há alguns anos atrás, era o poderoso cavaleiro Ângelo, lutador incansável. Totalmente imbuído de energia YANG, esse homem forte, corajoso e másculo conquistava o coração das mulheres, era querido e respeitado pelo povo que protegia e submetia todos aqueles que ousavam invadir o seu território ou ameaçar a sua chefia. Conheci--o na época em que vivia e trabalhava como serviçal num castelo em que ele costumava pernoitar. Nas noites frias, eu mantinha o fogo aceso no seu quarto para que ficasse agradavelmente aquecido e, em qualquer época do ano, tratava das suas roupas com o desvelo próprio de uma jovem apaixonada. Sim, eu amava-o e admirava-o, mas ele parecia não me dar muita importância; na verdade, só se preocupava com as suas batalhas, vitórias e conquistas militares e amorosas. Às vezes, no entanto, eu surpreendia o seu olhar a passear pelo meu corpo, o que despertava em mim emoções estranhas e incompreensíveis. Nessa época não conseguia entender o que tudo isso significava; sei apenas que era tomada de grande alegria quando o via chegar no seu cavalo e ficava quase em êxtase quando percebia que, afinal, ele admirava o meu rosto, os meus olhos grandes e profundos, os meus longos cabelos, a minha personalidade forte – num certo sentido, éramos parecidos e igualmente dotados de determinação. E eu achava que isso também o atraía.
Estivemos algumas vezes juntos, e nesses momentos, além de felicidade e plenitude, senti um Amor profundo, que eu sabia ser impossível; afinal, não passava de uma serva, e tinha certeza de que ele nunca me tomaria como sua mulher. Mas nos meus devaneios via-o a aproximar-se de mim com o rosto ansioso, sentia os seus braços fortes a erguerem-me para a garupa do seu cavalo e imaginava-nos a ambos a atravessar os campos numa louca cavalgada. Isso nunca aconteceu. Pelo contrário, com o passar do tempo, via-o cada vez menos e passava horas com os olhos fixos no horizonte, à sua espera. Um dia, dei-me conta de que ele não aparecia no castelo há muito tempo. Fiquei desesperada: precisava de o ver de novo, ele era a Luz que iluminava os meus dias e nada me doía mais do que pensar que não voltaria a tocar-lhe. Viu o cavaleiro Ângelo?», perguntava a todos os que chegavam, ao povo nas ruas, aos comerciantes, agricultores e viajantes. Finalmente, obtive uma resposta; era estranha, mas não podia ignorá-la e decidi ir atrás da única pista que possuía. Segundo um antigo companheiro de armas, Ângelo tinha abandonado tudo para seguir um homem chamado Francisco, que deambulava pelo Mundo. Arrumei as poucas coisas que me pertenciam e parti à sua procura, perguntando a todos os que passavam por mim onde poderia encontrar Francisco e aqueles que o acompanhavam. Fiquei surpresa quando percebi que eles eram mais conhecidos do que imaginara, mas mesmo assim ninguém sabia exactamente a região em que poderiam ser encontrados ou os caminhos que percorriam. Estão sempre em movimento de um lugar para o outro», explicavam alguns; mas todos, sem excepção, tinham a certeza do local em que eu encontraria informações precisas: uma comunidade próxima de Assisi, formada apenas por mulheres. Clara e as suas irmãs! Pergunte por elas», indicavam.
Finalmente, cheguei à rústica construção em que viviam essas mulheres, e uma delas levou-me até Clara. Mesmo sem me conhecer, esta estendeu-me os braços, puxou-me delicadamente de encontro ao seu peito e abraçou-me com força, como se estivesse à minha espera. E disse: És a Lúcia. De hoje em diante chamar-te-ás Irmã Lúcia e iniciarás a aprendizagem que te transformará em mensageira de Amor na Terra.» Não entendi o significado das suas palavras. Eu não estava ali para me tornar mensageira de coisa nenhuma! Só queria saber onde estava Ângelo, só queria tocar-lhe novamente! Mas antes que lhe pudesse fazer qualquer pergunta, Clara pediu a uma rapariga que me levasse até um lugar repleto de lenha: ali seria o meu quarto, e a lenha a minha cama. Decidi ficar até ter oportunidade de verificar a veracidade das infomações que tinha recebido. Mas tudo naquele lugar era muito estranho! Não era possível que Ângelo se relacionasse com aquelas pessoas; ele não tinha nada a ver com a pobreza – não, o Ângelo que eu conhecia, orgulhoso e poderoso. E essas mulheres tão jovens – algumas pareciam meninas –, o que faziam ali? Diziam que eram de origem nobre, de famílias ricas... mas então, porque se vestiam com túnicas pobres, dormiam às vezes no chão e se alimentavam frugalmente? Sentia-me perplexa e por mais esforço que fizesse não conseguia encontrar respostas lógicas para essas perguntas. Talvez, também elas tenham abandonado tudo por amor a um homem, cheguei a pensar, mas não ousei expressar essa hipótese em voz alta. Tudo o que tinha a fazer, decidi, era aguardar; mais dia, menos dia, teria notícias de Ângelo.
Portanto, deitei-me sobre a lenha seca e áspera e após um curto período de descanso atendi ao pedido para me reunir a onze jovens numa pequena sala de orações. Enquanto observava, espantada, o fervor com que elas rezavam, repetia, mentalmente, a mesma pergunta e a mesma afirmativa O que é que estou a fazer aqui? Eu só quero ver Ângelo! Só quero saber onde ele está! No entanto, resolvi ficar calada e participar nas orações. E esta foi para mim outra experiência nova, pois nunca o fizera juntamente com outras pessoas. As minhas orações solitárias, sempre dirigidas a Jesus, pediam apenas o regresso de Ângelo; e agora ali estava eu, ao lado de gente desconhecida, a pedir pelos doentes, pelos leprosos, pelos miseráveis, pelos órfãos, sem perceber como é que essas jovens mulheres, tão bonitas, se sujeitavam àquela vida de pobreza. Teriam elas vindo para cá em busca do amor, exactamente como eu fiz? Ângelo, sempre Ângelo. Parecia que toda a minha vida se resumia àquele nome: ÂNGELO, ÂNGELO.
Apesar da confusão que havia dentro de mim, resolvi não perguntar mais nada e, aos poucos, fui-me adaptando àquela vida. Eu sentia-me bem naquela casa – afinal, não tinha família e nem sequer sabia quem eram os meus pais: fora abandonada no castelo, onde trabalhei desde a infância. Cheguei a ouvir dizer que era filha de um nobre e de uma serviçal e que esse homem nunca me reconhecera. Mas não saber quem eram os meus pais não me angustiava – o que me entristecia era a ausência de Ângelo, a saudade da sua energia: a sua presença fazia-me ter vontade de viver! No entanto, sentia-me confortada só por saber que estava ao lado de gente que o conhecia e respeitava. Clara, por exemplo, falava por vezes no seu nome. Isso aliviava-me: Ao menos sei que está vivo, pensava para comigo.
Muitas vezes perguntei a mim mesma o que significava tudo aquilo: obsessão, dirá quem nunca viveu uma experiência de amor. Mas eu sabia que não era obsessão; sabia que algo maior e mais forte me fazia ir à procura de Ângelo e do seu olhar.
Uma madrugada, algum tempo depois. Dentro de poucos instantes, a Lua esconder-se-á e o Sol surgirá no horizonte. Em silêncio, damo-nos as mãos, formando um grande círculo, e aguardamos o instante exacto em que os dois astros ficam igualmente visíveis no firmamento. Quando os primeiros raios de luz rasgam a noite, o nosso grupo – formado por doze mulheres – ergue as mãos, ainda presas umas nas outras, numa oração muda de saudação à Dama de Prata e ao Astro Rei. Nesse momento, as doze energias completam--se e equilibram-se, formando uma única e subtil entidade pertencente ao Todo. Penso em Ângelo e desejo ardentemente que ele se una a mim em oração. Seremos Um no Todo: é nisto que eu, Lúcia, penso antes de alcançar um outro plano e um outro estado de consciência. Finalmente, somos Um, na plenitude Cósmica. Eu e Ângelo somos Um na Luz.
Regresso ao plano da terra e percebo que Ângelo não está comigo. Que pena! Foi tudo uma ilusão, penso, estou sozinha novamente. É... tudo isto é muito bonito, mas já se passaram vários meses e eu ainda não encontrei o meu amado. Onde estará ele? Uma das irmãs disse-me ontem que ele foi cumprir uma missão fora da região, juntamente com Francisco. Gostaria de conhecer esse Francisco de quem todos falam com tanto respeito e carinho. Conto os dias, mas ninguém sabe dizer quando é que eles voltarão.
Na verdade, esta espera já não me aflige tanto e torno-me cada vez mais paciente e tolerante a cada dia que passa. Mantenho a discrição e não revelo o meu segredo, mesmo sendo muito difícil guardá-lo só para mim – é que tenho medo de ser mandada embora se souberem que estou aqui por causa dele! Faço tudo o que me pedem da melhor maneira possível e sou obrigada a admitir que estou a aprender muito com as minhas companheiras. Fico atenta para não ser egoísta e não pensar só em mim; começo a perceber a grandeza que há em rezar pelos outros, cuidar dos doentes, amar e respeitar as pessoas. Sinto-me feliz e nem sequer os limites impostos à minha liberdade me incomodam: levanto-me à hora marcada, não perco as orações em grupo e estou sempre disponível para qualquer trabalho, sem nunca me queixar. Acho o meu quotidiano extremamente gratificante e a minha admiração por Clara cresce a olhos vistos. Sonho frequentemente com Ângelo e tenho vontade de revelar os meus sentimentos a Clara. Será preciso? Por vezes acho que ela sabe o que se passa comigo, pois sempre que fala de Francisco olha para mim como se tivesse certeza que eu a compreendo. Imaginação? Não sei! O que me espanta é que estou cada vez mais sensível e percebo mudanças subtis no meu corpo – nalguns momentos, sinto-me como se levitasse; noutros, parece que voo; e às vezes chego a pensar que estou a enlouquecer. Mas, quando isto me acontece, aproximo-me de Clara e imediatamente a sua energia transmite-me paz e conforto.
A manhã do encontro. Ontem, poucos minutos antes da hora do silêncio, soube que Ângelo e os seus companheiros tinham chegado finalmente à região e já estavam perto. Depois de uma noite em claro, marcada por sentimentos de alegria, ansiedade e inquietação decidi, ao amanhecer, ir à sua procura e tentar vê-lo fosse como fosse, mesmo que à distância. Nada, nem ninguém, me impediria! Esta determinação assusta-me, pois sei que quando ela toma conta de mim sou capaz de tudo, sem que nada me possa parar: faço o que acho que é preciso, o que o meu coração manda, e consigo o que quero. Fui sempre assim. Dirijo-me ao local em que ele provavelmente está com seus companheiros; trepo a uma árvore e espreito. A emoção toma conta de mim quando o vejo vestido com uma simples túnica. Está muito diferente do cavaleiro Ângelo – até a sua maneira de andar é mais humilde! – e admiro-me quando percebo que o seu objectivo, nessa manhã ainda cheia de névoa, é apenas alimentar os passarinhos que voam à sua volta. Ângelo, o antigo dono das minhas noites e dos meus dias, já não existe! Mas não amo menos esse homem em que ele se transformou! Esta revelação abala--me tão intensamente que grito e, sem saber como, escorrego e caio. Magoo a perna direita e choro ao ver o sangue que me corre do ferimento. Mas as minhas lágrimas não são provocadas apenas pela dor; são também de alívio e alegria por tê-lo encontrado e descoberto que o aceito e amo pela sua essência. Os meus sentimentos não têm nada a ver com as belas roupas que ele costumava usar ou com seu porte altivo, o seu poder ou a sua riqueza. Eu também o amo na simplicidade e na pobreza.
Por obra do destino ou por milagre – e não são ambos parecidos? –, Ângelo vem em meu socorro. Sem mostrar que me conhece, examina o ferimento e trata-o com plantas e ervas. O tempo pára. Mas, lentamente, ele ergue o rosto, os seus olhos fitam os meus e os seus braços envolvem-me com uma grande ternura. Que felicidade, que alegria imensa! O meu espírito afasta-se do meu corpo e eleva-se acima das nuvens. Quanta paz! É sempre assim quando estou perto dele: o tempo e o espaço não existem, é como se nunca nos tivéssemos separado. Parece que o nosso último encontro foi há poucos dias atrás e, no entanto, há muito tempo que eu não sentia o seu olhar, o seu coração, o seu calor e a sua extraordinária energia.
Regresso à minha comunidade a correr, ofegante, completamente iluminada. Como não poderia deixar de ser, Clara percebe que estou diferente. Mas agora já não tenho medo de lhe falar nos meus sentimentos. Conto-lhe tudo o que sinto e ela ouve-me atentamente, não apenas com os órgãos da audição, mas também com a alma e o coração. Tanto isto é verdade que, quando termino, ela sorri e abraça-me. Comunicamos sem palavras. Sei que ela entendeu tudo e aceitou tudo. Como é que alguma vez pude imaginar que me rejeitaria?
Uma outra manhã, no alto de um monte. Sem saber como, nem porquê, afasto-me das minhas companheiras. Num impulso incontrolável, atravesso o vale, subo a encosta de um monte e rapidamente chego ao cimo, a tempo de ver Ângelo de pé, o rosto voltado para o alto, os braços caídos ao longo do corpo, os olhos fechados, em contemplação: é sempre assim que ele fica quando está a meditar, a rezar, a entrar em contacto com a Natureza, as aves, os animais. Nada o perturba e ele nem sequer parece aperceber-se da minha presença. Quando a minha respiração se acalma e me sinto pronta – nem mesmo sei para o quê – aproximo-me silenciosamente e coloco-me diante dele, na mesma posição. Do centro do meu peito sinto fluir ondas de forte energia na sua direcção. Aos poucos percebo também a sua vibração e noto que, juntos, criamos uma ligação energética cósmica intensamente brilhante. Somos Um em espírito, mais uma vez. Rompemos as nuvens, deixando para trás a relva macia, a sombra das árvores e o Mundo em que vivemos. Flutuamos no espaço, em plena liberdade e intensa alegria. Quando volto a sentir a terra sob os nossos pés, sinto os seus olhos nos meus, os nossos braços ligeiramente dobrados e erguidos em direcção ao céu, as palmas das nossas mãos tocando-se levemente, à altura dos nossos ombros, e a sua testa muito próxima da minha. Afastamos as cabeças, sem deixar de olhar nos olhos um do outro e, pela segunda vez na nossa vida, como Irmã Lúcia e Frei Ângelo, trocamos um abraço, um simples abraço. Um abraço cuja força jamais será perdida, que se perpetuará pelos séculos vindouros.
Tenho a certeza de que, a partir de agora, o nosso encontro no plano da Terra se dará sempre através dos nossos olhos, do toque das nossas mãos e da troca da energia subtil que emitiremos um para o outro, mesmo quando estivermos distantes.
Um dia depois do outro. Não há dúvida de que já faço parte dessa comunidade e sinto-me cada vez mais plena e feliz. Raramente encontro Ângelo, mas isso não me entristece. Pelo contrário, saber que estou a cumprir a minha Missão junto de pessoas doentes é maravilhoso e faz com que me sinta cada vez mais iluminada. Parece que a Lúcia de antigamente já não existe; sou uma outra Lúcia e Ângelo, ele também, é outro, mais sensível e humano. Apesar de fisicamente distantes, estamos mais unidos agora. Sinto a sua energia constantemente ao meu lado, partilhamos os mesmos ideais, vibramos na mesma sintonia – tudo muito diferente do tempo em que ele era um cavaleiro e eu uma simples serviçal. Aqui, na comunidade franciscana a que pertencemos, somos iguais e temos o mesmo objectivo: ajudar e confortar aqueles que necessitam da nossa energia de amor. Todas as noites agradeço a Ângelo a sua existência, pois foi através do meu amor por ele que aprendi a amar a Humanidade.
Hoje, percebo que o nosso encontro na Terra foi um instrumento utilizado pelo Plano Superior para que o nosso espírito pudesse evoluir mais rapidamente. As pessoas que nunca passaram pela experiência de um Amor Maior não conseguem compreender a intensidade e abrangência desse tipo de sentimento, e muitas vezes chegam a pensar que tudo não passa de uma paixão banal, que brilha e se apaga tão rapidamente como a luz emitida por um relâmpago – mas não conhecem, ou já esqueceram, a extraordinária carga energética dessa força da Natureza, capaz de iluminar, mesmo que por poucos instantes, grandes territórios! Assim é o amor que sinto por Ângelo: tão forte e dotado de tanta luz que revela aspectos jamais apercebidos por mim no mundo em que vivemos. Graças a ele, descobri a beleza interior de muitas pessoas, a grandeza de uma plantinha minúscula e do mais pequeno dos animais, ou a importância de objectos tão simples como uma tigela de barro. Ele, Ângelo, é o meu grande Mestre aqui na Terra. No entanto, apesar do meu sentimento por ele às vezes me fazer crer que por sua causa sou capaz de amar tudo e todos, quando me lembro de uma determinada mulher da comunidade dos leprosos percebo que isso não é totalmente verdade. Não consigo gostar dessa mulher, e isso desespera-me...
Gritos ao meio-dia. Estamos a separar os alimentos para os leprosos que vivem fora dos muros da cidade e para as inúmeras pessoas que diariamente chegam a nossa casa – umas apenas por curiosidade, para tentar descobrir o que se passa naquela comunidade de mulheres pobres dedicadas à prática do bem e à veneração de Cristo, outras em busca de Clara, do seu toque, das suas palavras de conforto e da sua doação. Tocar nos outros com amor: essa é uma das coisas que Clara nos ensina, recordando-nos sempre o efeito curador do gesto de afecto. No entanto, para algumas de nós, e até mesmo para alguns companheiros de Francisco, é muito difícil vencer o medo e tocar nos doentes que estão em pior estado. Há uma mulher, em especial, que nos amedronta mais do que qualquer outra pessoa. O seu corpo, coberto de feridas, sempre sujo e a cheirar muito mal, e a face deformada são provas do avanço da doença, nos últimos tempos agravada por indícios de loucura e alguns gestos de crueldade. Francisco e Clara são gentis para com ela. Mas aquela mulher é, no entanto, muito orgulhosa: não aceita a doença que lhe consome a carne, sente raiva de si mesma por ser como é, odeia todas as pessoas sadias – e até mesmo os outros leprosos em melhores condições – e recusa-se a entender que o seu sofrimento físico é uma forma de purificação espiritual. Às vezes conversamos sobre ela, à hora de nossa reunião diária. Explicamos a Clara que temos muita vontade de a ajudar, mas que também estamos a aprender, que também somos humanas e temos limitações. Todos os dias fazemos um grande esforço para vencer as nossas dificuldades, pois sabemos que esse empenho e essa experiência fazem parte da aprendizagem e do crescimento de cada uma de nós. Acreditamos que, se conseguirmos transmitir-lhe amor, decerto seremos capazes de amar todas as criaturas. Sei que esse é a maior prova que enfrentarei no meu processo de evolução espiritual, pois Jesus já dizia: Amai-vos uns aos outros... Ama o teu próximo como a ti mesmo... Mas isso nem sempre é muito fácil.
As minhas companheiras e eu dirigimo-nos à paupérrima comunidade dos leprosos. Estamos já muito perto quando ouvimos gritos de horror. Começamos a correr em direcção à multidão de doentes que se amontoa em torno de uma grande árvore. Alguns frades também se aproximam, a correr. Entre eles, Ângelo. Os gritos são cada vez mais altos e, de repente, surge diante dos nossos olhos uma cena horrível: pendurado na ponta de uma corda atada a um dos galhos está o corpo da mulher leprosa, girando, girando... girando sem parar, até que a cabeça e o tronco se separam. Tinha tirado a vida a si própria, e Ângelo grita mais alto do que todos, ao mesmo tempo que tenta amparar o corpo morto nos seus braços; quando finalmente o consegue, abraça-o como se fosse um bebé e implora perdão a Deus, a Jesus e ao espírito que acabara de deixar a Terra, por não ter conseguido vencer as suas barreiras e amar aquela mulher como um ser humano.
Quando a noite vem ainda estamos perto da árvore, tristes e envergonhados. Todos nós nos recriminamos, interiormente, pela morte da leprosa e pensamos que ela ainda poderia estar viva se lhe tivéssemos dado todo o afecto de que precisava. Ângelo culpa-se mais do que qualquer outro, pois aprendera com Francisco que o seu amor devia ser incondicional. Não consigo afastar a sua imagem da memória: ajoelhado, os braços envolvendo o corpo inerte, o rosto contorcido pelo choro e os gritos. Perdão..., gritara ele dez, cem, mil vezes! Sem poder aproximar-me ou consolá-lo, eu também implorava silenciosamente: Meu Deus, perdoa o Ângelo! Jesus amado, tem compaixão da sua alma! Senhor, permite que eu possa aliviar a sua dor e que consiga ajudá-lo a carregar o peso do seu arrependimento. Pai, dá-me forças para ficar eternamente ao seu lado.
Eu quero estar fisicamente próxima dele, mas não posso. Isso não é permitido, não neste momento em que temos de ser exemplo de rectidão, recolhimento, humildade e Amor Incondicional – e por ser Incondicional, este Amor é também amplo, irrestrito, transcendente, livre, até mesmo dos apelos materiais. Estamos distantes, mas não separados. Somos Um no Todo.
Volto para a comunidade e ajoelho-me pedindo perdão a Deus por ter sido tão egoísta, por não ter conseguido gostar daquela mulher; ao mesmo tempo, lembro-me dela, da maneira como afastava as pessoas – era como se não desejasse ser amada! Recordo que em alguns momentos ela parecia, pelo menos a mim, possuir uma energia totalmente diferente de todos os que ali estavam: os doentes são humildes, agradecem a nossa amizade e tentam retribuir o nos-so carinho de alguma forma. Mas aquela mulher era diferente. Não conseguia transmitir nada de bom, nunca fez um gesto de humildade ou que indicasse ser merecedora de afecto e tratava todos com desprezo. No entanto, quem sou eu para julgá-la? Quem sou eu para saber o que é certo ou errado? Clara e Francisco ensinam-nos a dar sem pensarmos em receber. Mas neste caso, não é bem isso: eu não queria receber; eu só percebia que ela, com a sua prepotência, nos mantinha afastados e nos impedia de agir e de dar.
Durante muito tempo tentei superar os meus sentimentos conflituosos em relação a ela, mas não consegui! PORQUÊ ? Sim, porque é que eu – que com Francisco, Clara e Ângelo aprendi tanto sobre o amor – tinha tanta dificuldade em aceitá-la? Talvez o meu espírito já soubesse que numa outra vida ela seria a mulher que tentaria impedir-me de me aproximar da minha Alma Gémea.
Revelações. Tal como acontece todos os dias, ao cair da tarde, estamos reunidas para rezar. Clara pede mais uma vez para orarmos por aquela mulher, mas para mim é muito difícil fazê-lo. Hoje, não consigo. Fico triste, muito triste, e olho a noite que chega como se fosse um véu de luto no meu coração. Sinto a energia da suicida a atormentar-me, revejo mentalmente todo o sofrimento de Ângelo por também não ter conseguido passar a prova de Amor Incondicional, e tenho a certeza de que essa experiência vai ter um papel muito importante na nossa evolução espiritual. Clara sente o meu tormento – percebo-o pelo modo carinhoso como me olha. As orações terminam e a nossa Mestra começa a falar. Os seus olhos fecham-se, a voz adquire um tom ainda mais suave e ela profetiza qual será a missão de cada uma de nós na Nova Era, daqui a centenas de anos! Reparo que estão todas surpreendidas. O seu rosto volta-se agora para mim. Abre os olhos lentamente, mas eles fixam-se num ponto muito afastado de nós, do lugar e da época em que vivemos. Silêncio. Finalmente, o seu olhar foca o meu e parece mergulhar na minha alma. Ela diz: Lúcia, a tua Missão será uma Missão de Amor. Tu serás a mensageira da energia do Amor na Terra, a mensageira da verdadeira relação entre as Almas Gémeas. Chamar-te-ão louca, tal como chamaram a Francisco. Serás perseguida, mas conseguirás provar, por meio das tuas atitudes, que o Amor vence todas as barreiras. Tu, Lúcia, vencerás pela FORÇA DO AMOR. Respondo: EU? Eu sou a mais nova aqui, não sei nada. Mas ela garante: Sabes. Sim, tu conheces o significado do verdadeiro Amor.
Ano de 1997. São Paulo, Brasil
Esta regressão a uma vida passada, realizada em 1994, foi fundamental para que eu, Dulce Regina, astróloga kármica, percebesse o que estava a viver nesta encarnação. Graças a ela, descobri que os espíritos de Dulce e de Lucas tinha encarnado, no final do século xii, numa menina e num menino que, na idade adulta, se tornaram membros de uma comunidade que pregava a pobreza, a caridade e o Amor Incondicional. No entanto, somente dois anos depois, aquando de uma viagem a Assisi, na Itália, é que tive as provas de que a minha Alma Gémea, Lucas, guardava o espírito de Frei Ângelo – um dos mais próximos companheiros de São Francisco – e de que eu tinha sido a Irmã Lúcia e tinha tido o privilégio de conviver com Santa Clara. Percebi, ainda, que a história de Lúcia e Ângelo tinha estendido os seus ramos até aos dias de hoje, determinando os caminhos percorridos por mim e pela minha Alma Gémea nesta vida. Tanto assim que, mesmo sem o saber, eu ainda partilhava com ele o peso do seu arrependimento espiritual e da sua culpa e tentava ajudá-lo a manter a promessa feita no Plano Superior de cuidar, respeitar e amar o espírito que habitara a mulher leprosa e que actualmente se encontra encarnado na sua esposa.
*.*.*.*.*.*
UMA NOITE EM ASSISI
Memórias, anseios e revelações misturam-se
na sacada iluminada pela Lua,
uma noite, em Assisi...
Aos meus pés, invisível na escuridão da noite, estende-se a encosta do Vale Marconi, no lado noroeste de Assisi; mas mesmo sem o ver, a vida que o habita revela-se no delicado som dos badalos usados pelos seus animais e das folhas de árvores e ramos de arbustos agitados pela brisa nocturna do Verão italiano. Mas nada nesta cidade da Umbria, no coração verde da Itália, se assemelha a qualquer outra coisa existente nos diferentes cantos do Mundo que conheci – nem mesmo a noite, quando a imensa Basílica de São Francisco parece pairar, iluminada, sobre a terra; muito menos a energia que se desprende da velha muralha e das paredes do templo, impregnando o nosso corpo, alterando os nossos sentidos e transformando a nossa alma.
Ao observar as arcadas e torres da igreja secular, à minha direita, refaço mentalmente, mais uma vez, os caminhos que percorri hoje à tarde no seu interior, até chegar à cripta, contornando a pequena sala onde repousam os corpos de São Francisco e de quatro dos seus companheiros e ao ajoelhar-me diante da urna de pedra que guarda o irmão das aves, do Sol e da Lua. Naquele momento, sem me importar com a curiosidade dos turistas que enchiam a sala, entreguei-me, em pranto, à emoção própria de quem sabe que voltou a casa e reencontra, passado tanto tempo, antigos companheiros de jornada. Entre eles, Frei Ângelo, meu irmão, meu mestre, meu amor... Ao alcance das minhas mãos, na segunda das cinco tumbas da cripta, estão os seus restos físicos; no Brasil, a milhares de quilómetros, está o corpo denso de um homem chamado Lucas que abriga o seu espírito; e dentro de mim, a mulher que hoje se chama Dulce, mas que há quase oitocentos anos atrás era a Clarissa Lúcia, vivem e brilham a energia e a chama amorosa despertadas por Ângelo/Lucas – apenas dois dos inúmeros nomes terrenos desta força que é a minha Alma Gémea. Ainda de joelhos, rompi mais uma vez os limites do tempo e do espaço, deixei para trás a cripta e a era dos foguetes, e vi-me coberta com as vestes simples das Clarissas, sentindo a brisa no rosto enquanto atravessava os campos à procura de Ângelo e do seu abraço – um caminho tão conhecido que poderia percorrê-lo à noite ou de olhos vendados, sem nunca me cansar.
Para minha surpresa, essas imagens e sensações eram as mesmas que experimentara em 1994, durante a regressão que conto no início deste livro. Nela, passei por várias situações vividas por uma irmã chamada Lúcia. Uma dessas situações marcou-me mais profundamente e ficou--me gravada na memória: aquela em que magoo a perna em galhos secos e espinhos, ao cair de uma árvore. De repente, um frade franciscano ajoelha-se aos meus pés, observa e toca com cuidado e concentração a perna magoada, abre um pequeno bornal preso à cintura e dele tira a mistura de plantas e ervas com que cobre a área afectada, curando-a quase instantaneamente. Só então ergue o rosto. Os nossos olhares encontram-se e ambos sentimos uma profunda e indisfarçável emoção – uma emoção que naquele momento e época não soube identificar. Quase sem nos apercebermos, aproximámo-nos e trocámos um intenso e longo abraço. O seu nome era Ângelo: Frei Ângelo.
Mas foi somente em Assisi, na tarde ensolarada de 16 de Julho de 1996 – portanto, dois anos depois do retorno a essa vida passada – que ao emocionar-me diante de uma tumba identificada como sendo de FR. ANGELO † 1258 compagno di S. Francesco, pensei na possibilidade de o meu Ângelo ser um dos companheiros mais próximos de São Francisco. Até então, não fazia a menor ideia de quem eram as pessoas que conviviam com o santo homem e somente no segundo semestre de 1996 é que tive provas e informações sobre o cavaleiro Ângelo que me permitiram ficar mais certa da sua relação com Lucas e, casualmente, localizei Lúcia dentro da comunidade encabeçada por Santa Clara.
Seja como for, a lembrança dessa regressão de 1994 trouxe a vivência e a emoção do abraço entre Lúcia e Ângelo e transportou-me a dois momentos de extraordinária importância na minha vida, pois, sem a menor dúvida, foram preparados pelo Plano Espiritual para que eu seguisse um trilho em que o Amor desinteressado, generoso e irrestrito seria o meu maior guia.
O primeiro desses momentos ocorreu às seis da tarde do dia 25 de Março de 1968, quando eu – muito jovem, confusa e sem rumo – olhei pela primeira vez para os olhos de Lucas e as nossas mãos se tocaram. Ao mesmo tempo que um arrepio intenso percorria todo o meu corpo, reconheci o seu olhar – ele era tão familiar! – e senti o impulso de o abraçar; parecia-me absolutamente natural querer encostar a cabeça ao seu peito, envolver o seu pescoço com os meus braços. Tocá-lo, senti-lo. Mas contive-me, com medo do que ele poderia pensar de um gesto deste tipo vindo de alguém que, aparentemente, acabara de conhecer. O que eu ainda não sabia, nem ele, é que o primeiro encontro entre Almas Gémeas numa vida é abençoado por uma forte sensação física e pelo reconhecimento através do olhar; estes sinais são inesquecíveis e exclusivamente emitidos pelo seu Complemento Divino, nunca se repetindo com qualquer uma das inúmeras pessoas que todos nós conhecemos, até mesmo com as que nos são especialmente queridas.