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Valerie

by

E. Landi

SMASHWORDS EDITION



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Valerie

by E. Landi

Copyright E. Landi 2011

Smashwords Edition



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O conteúdo desta obra, inclusive revisão ortográfica, é de responsabilidade exclusiva do autor



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Este livro é dedicado à memória de minha mãe

Guiomar de Brito landi (Nhazinha) *15/05/1916

+24/06/2008

Dela escutei histórias de suas recordações da juventude, e que me decidiram escrever este romance. Lamento não ter-lhe apresentado esta obra, pois sei que gostaria de tê-la lido. Faz-se justiça dar-lhe a co-autoria deste livro.

Descanse em paz, saudosa mãe! Que o repouso eterno possa lhe consolar às tristezas da vida!



Dedico esta obra à memória de meu pai Antonio Novaes da Silveira (Toninho) A vida foi-lhe a maior riqueza; mesmo vendo sobre o seu corpo o fantasma dos anos vividos...



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Prólogo



É melhor arriscar coisas grandiosas, alcançar triunfos e glória, mesmo expondo-se a derrota, do que formar fila com os pobres de espírito que não gozam muito nem sofrem muito, porque vivem nesta penumbra cinzenta que não conhece vitória nem derrota”

(Theodore Roosevelt)

Enfim registro o meu segundo livro. Assim escrito deixa-te a impressão de que o antecedente deu-me ensejo para outra lavra. Engana-te se estais a conceber tal juízo, e imaginas mal!

Machado de Assis ao escrever Memórias Póstumas de Brás Cubas confiou que teria, talvez, cinco leitores; estava equivocado, pois sua sagração como escritor deu-se ainda em vida.

Sou-lhe o adverso! Desejava cem, ou mesmo duzentos leitores. Porque não quinhentos? Sim, quinhentos leitores já ficavam de bom tamanho! Tal não aprouvera dar-se. Os previstos quinhentos minguaram-se para pouco mais de cinco. Cinco leitores dos meus originais, pois o livro nunca foi publicado. Fico pasmo quando me chegam às mãos publicações atuais lidas no mundo inteiro, incensadas que são pela mídia. Apesar de dispensar-lhes minha melhor atenção, não lhes enxergo um lampejo sequer de genialidade. Imerso em tédio percorro-lhes, vou das primeiras às últimas páginas, sem que lhes possa vislumbrar nas histórias sem sabor uma frase sequer que me emocione.

Nada. Tudo uma pobreza só!

Assim são os “magos” da literatura contemporânea.

Deixo-os então para os aplausos do mundo; refugiar-me-ei nos clássicos; onde encontro até explicações para o alvoroço literário atual, como se pode constatar nesse fragmento da obra Mortalha de Alzira do autor Aluízio de Azevedo: no diálogo entre o espectro de Alzira com o ensandecido pároco Ângelo; esta lhe diz:

“Loucura! E conheces, por acaso, alguma cousa no mundo que não seja delírio e loucura?... O que é a tua virtude senão loucura?... o que é a tua ciência?... o que é a tua religião?... Tudo isso é insânia!... Tudo isso é a febre dos doidos!... é o desvairar dos loucos”.



Eis, pois, minha nova criação! Anseio que não vá a cair-se na mesma sorte da anterior.

Um escritor sem leitores é como um agricultor sem terra, que não tem onde lançar e germinar as suas sementes.

Se, no primeiro fui pródigo no intróito e nas apresentações, neste não incorro em igual erro: economizo tinta, papel e a paciência do leitor.

Sobre isso já afirmava Machado de Assis:

“Há coisas que melhor se dizem calando". Calo-me, pois! Mas, na fé de que o escritor novato jamais terá um único livro publicado sem que o tenha escrito relatando sobre sexo, bruxos, anjos e o diabo.

Talvez o fruto desta safra possa parecer-te adocicado, mas, com certeza, tal é um bel-prazer enganoso; e se assim o for, não virá da minha escrita.

A sementeira que fiz foi decepcionante; saturada no fel das minhas palavras, regada com o ácido incisivo da minha desilusão...

Que tal produto nascerá? E que gosto poderá suceder daí?...

O Autor.

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Capítulo 1



O dia estava perfeito, sol morno, brisa afável com nuvens claras e esparsas vagando pelo céu azul anil, da cor dos olhos de Ana Emilia, que Valerie não se enfadava em fitar.

Exclamou Valerie, enlaçando com ternura e trazendo para si, aquela - Ah! Como são lindos... Perco-me em sonhos só em olhá-los!- que imaginava ser a mais meiga das criaturas.

- Sabes Anna... Existe algo de enigmático neste teu olhar que me confunde, é... Uma sensação que me invade, igual aquela primeira vez que me olhastes; desde então, por mais que queira impedir, mesmo sabendo... Todas as conseqüências e perigos que me espreitam, vivo só para te desejar...

Ela tentava, sem encontrar as palavras certas, esforçava-se para explicar a atração enorme que sentia por sua amiga; dizer-lhe sobre a sensação existente dentro de si, ânsia incontida que buscava reprimir, pois sabia o quanto lhe custaria guardar aquele desejo secreto; entendia a reprovação que todos lhe lançariam à face caso viesse a trair-se, até mesmo por um furtivo olhar dirigido à amiga. Que, o mundo, a religião e a família a condenasse, eram-lhe inúteis, pois aquele anseio jamais poderia sufocar.

- Oh! Que delírio... Eu nem sabia o que era amar! Foi uma surpresa... Um golpe doído, sofrido... Mas cheio de encantos, de se querer afagar, abraçar e beijar! - Ela realmente nem possuía noção exata de se explicar a amiga a causa de sua loucura febril!

Valerie desabafava com Anna, falava-lhe dos momentos de aflição quando a viu diante da janela de sua casa, e todos os acontecimentos daquele dia até o momento em que percebeu que estava perdidamente apaixonada por ela.

As duas, de mãos dadas, estavam paradas próximas a uma frondosa amendoeira, local escondido que existia no fundo do pomar da casa dos pais de Anna; bem ali, um local lindo onde jorrava uma pequena nascente de água luminosa e cristalina.

Anna Emília estava distraída olhando para relva que se esparramava sob seus pés, e parecia encabulada com a confissão que acabara de ouvir! Mas nada fez nem falou, apenas esboçou um sorriso quando a outra lhe acariciou os cabelos lisos e longos, aspirando-lhes com incontida volúpia o aroma tentador.

A menina mostrou-se desconfortável diante daquela situação; apenas no início, logo se abandonou inteiramente vencida e submissa aos afetos, deixando sua cabeça repousar no ombro da companheira.

Esta que já lhe desabotoava a blusa, donde surgiram seus pequenos e pontiagudos seios rígidos e, enquanto os acariciava, beijava-lhe com incontida volúpia o pescoço e o rosto; por fim, alcançando-lhe os lábios entreabertos, num ímpeto de completa loucura sugou-os, sorvendo-lhe com ânsia da boca a língua morna; sem pudor, sem remorso, qual a uma abelha de primeiro vôo, retirando nervosa e às pressas, o mel de uma flor.

A tarde chegava ao seu final, esmaecia-se no apagar do rubro sol poente, que ao longe, lá no distante horizonte caia por detrás dos altos cerros azulados.

De corpos unidos em um abraço, as meninas estavam deitadas na grama rasteira que cobria o chão úmido. Se pudessem e não tivessem receios em serem vistas, ficariam ali por um bom tempo, sossegadas, esquecidas do mundo, mas a noite avizinhava-se célere, como uma advertência de que precisavam ir.

Levantaram-se lentamente, como estivessem se despertando de um longo sono; trôpegas, arrumaram com pressa suas vestes, saindo caladas, de mãos dadas iam felizes de volta para casa!

Depois daquele dia, passaram a andar sempre juntas; não se desgrudavam! Em todos os lugares que uma estava, e como se foram avisadas, a outra logo aparecia. Sempre que lhes surgia oportunidades favoráveis se encontravam no fundo do pomar, naquele local que lhes tornara um ninho de amor; e trocavam carícias, cada vez mais ousadas!

De certa feita em que lá foram, no auge de suas paixões incontroláveis, ficaram inteiramente despidas acariciando os sexos mutuamente, devagar, afetuosamente, até gozarem de prazer.

Beijavam com ânsia seus corpos nus e bocas sedentas de ternura, mordiam os bicos das mamas intumescidos de excitação e punham as línguas ávidas de luxúria em suas partes mais íntimas, sugando de lá todos os néctares até delirarem de encanto.

Por fim, o fogo sôfrego daqueles corpos jovens extinguiu-se na fadiga, na transpiração de abundantes orgasmos; caíam mudos sobre a relva do quintal, extenuados, satisfeitos, acabados de deleite...

Valerie devaneava olhando para aquelas quatro paredes mofadas, úmidas e melancólicas, que era a sua cela no convento; a menina relembrava os momentos afetuosos de paixão que vivera com Anna Emilia. Suspirou fragilmente, e num murmúrio repleto de tristeza disse:

- Ah! Anna querida, o que mais quero nessa vida é reencontrá-la; sinto que tudo me foge num sopro de vento, levando meu corpo a flutuar no espaço, acima de tudo; pairando além das ilusões, misérias e torpezas da vida. Em breve o mar revolto, os vendavais e todas as tempestades que assolam dilacerando o meu coração se acabarão, assim como começaram, e então, estaremos juntas para sempre!...

Mas, deixemos por enquanto a garota que padece em suas sofridas lembranças, e voltemos a um tempo passado; naquela noite que, sem acuar, a chuva despejava os cântaros.

O tempo se sustentara firme durante vários dias; todavia de jeito ríspido, sem anunciar, mudou-se em inesperado dilúvio, que caiu sem dó por cima dos raros moradores daqueles erráticos confins, onde só se podia acessar por uma velha estrada de chão batido, aberta em meio às montanhas.

Por certo, ali, a natureza exasperada marcava o domínio da sua força. E os ventos, tangidos em toda sua fúria, uivavam ensandecidos, pelos altos dos morros, seguidos pelo ribombar de alarmantes trovões e o brilho ofuscante dos relâmpagos que, de tempo em tempo, explodiam suas línguas de fogo pelas quebradas das vastidões.

Então, em meio à súbita tormenta que em bagos grossos se obstinava diminuir, ouviu-se o alarido ininterrupto do pranto de uma criança.

A menina, que mal acabara de chegar ao mundo, viera, sem dúvida, em ocasião nefasta. Entretanto sua mãe, bem como todos daquela casa, estavam exultantes.

Valerie, doce e esperta garotinha que, com quase três quilos e esbanjando bem-estar, achou-se em existir justo na data em que estava para completar dois anos do desaparecimento de sua irmãzinha, quando ela mal completara só um ano de vida.

Ainda a pranteavam quando à recém-chegada loirinha, que, de pele clara e olhos brilhantemente esverdeados, já dissipava com sua doce graça e inocente brejeirice a consternação que persistia em oprimir aquele lar.

O casal Dilaceri trouxe ao mundo uma progênie enorme, fato que era inteiramente normal para os costumes da época. Ao todo, em pouco mais de treze anos de casados, adicionaram ao convívio humano oito filhos.

Estávamos no ano de 1919, como acontecia naqueles tempos de ascendências fartas e carência de cuidados sanitários, os números de nascituros foram alternados com outros tantos de óbitos.

Assim, natalidades e funerais era rotina naquela família. Podia-se dizer que todos viviam de alegrias e ao mesmo tempo enlutados.

Mercedes Christine Dumont, em solteira, era uma mimada filha de abastados fazendeiros, donos de uma rica propriedade rural distante duas léguas do povoado mais próximo. Tivera ela duas irmãs, porém, ambas morreram vitimadas pela tuberculose, doença que aparecia por aquelas bandas e era incurável.

Estava com os seus trinta e dois anos e jamais andou procurando namoros, quando, de repente surpreendendo a todos, acabou apaixonando-se pelo Senhor Monti Dilaceri, um estranho que, vindo não se sabe de onde, aparecera por aquelas localidades vendendo tecidos.

Ele, Sr. Monti, era um presumido quarentão que viera montado em vistoso cavalo, puxando atrás de si uma tropa de mulas sobrecarregadas de enormes baús; os quais estavam abarrotados do seu mostruário de tecidos e tralhas de uso pessoal; inclusive mantimento usado em suas refeições durante as paradas pelas longas e desertas estradas, onde comumente transitava.

Nestas ocasiões saciava-se de um único cardápio de tradição dos tropeiros e viajantes; o feijão cozido com carne seca e toucinho, tudo isso muito bem temperado com folhas de louro, sal, alho, cebola e noz-moscada ralada.

A comida, geralmente preparada à noite, era consumida logo após o nascer do dia, trazendo nesse seu único cardápio arroz e farinha de mandioca. Saciando-se, tocava em frente, seguindo em andança e rasgando com renovada disposição o ventre dos capoeirões daqueles sertões inóspitos.

Por volta do meio-dia, fugindo dos rigores do sol em pino, fazia sua primeira parada à sombra dos arvoredos; ali, no momento do descanso da marcha, comia uma paçoca feita de gergelim, carne seca e rapadura, que ficava guardada dentro de uma lata que antes fora uma embalagem de biscoitos.

O Cometa, como era conhecido, arrumava enorme alvoroço pelos locais onde pisava, sobretudo entre as jovens moçoilas e solteironas de todas as idades que, à sua passagem, vinham afoitas às janelas.

Era um senhor de hábitos distintos e refinados, trajado sempre em calça, paletó e camisa branca, não dispensando em seu vestuário uma vistosa gravata borboleta que se combinava com um chapéu branco de panamá onde se observava um atraente detalhe, uma fita preta colocada em volta da aba.

Aprontado aquela sua fina figura habituava-se a calçar luzidas botas escuras, que lhe chegavam até quase aos joelhos, por onde lhes enfiava as pernas das suas calças de puro linho.

Mercedes, embora não fosse uma mulher bela, não era de se deixar passar despercebida.

Muito faceira em suas ricas vestes, chamava atenção onde quer que fosse. Vendo-o, deu logo um jeito em relacionar-se com aquele senhor, que, solteiro e já buscando uma sombra definitiva para descansar daquela sua faina, de modo repentino viu-se diante da afortunada conveniência em obter para si um casamento, que, ao mesmo tempo, o transformaria em um próspero fazendeiro.

Assim, deu-se um ótimo acerto. Cada qual ao seu modo estava agitado tão somente pelo desejo inconfesso em realizar seus intuitos pessoais.

Ela, buscando evadir-se da solidão, pois que, como sempre falava, até então não havia encontrado alguém a altura dos seus anseios e que a merecesse para matrimoniar. O tempo, certamente, não a perdoaria se continuasse indecisa naquela busca por um marido, acabaria celibatária.

Por sua vez, o Senhor Monti como já se poderia presumir, possuía anseios absolutamente pecuniários naquele relacionamento.

Assim eram os costumes da época, e ele concordava totalmente com aquele pensar; o amor no casamento era o que de menos se contava.

Destarte, após um breve namoro, as bodas acabaram em acontecer para o casal. E, foi na verdade um dos casamentos mais comentados do lugar!

Mercedes era uma mulher altiva e muito recatada, jamais tendo preocupação por algo, ou se interessado com afeto por alguém; mas, após o matrimônio, revelou-se, para surpresa daqueles que a conheciam, aptidões ignoradas, as quais, para que se diga a verdade, foi justamente a sua habilidade em procriar e criar filhos.

Dos filhos que lhes sucederam, três foram homens e cinco mulheres, mas, ao final sobreviveram-lhes apenas três garotas, sendo Valerie Marie Dumont Dilaceri, a caçula da família.

Talvez, devido a este fato, ela foi criada com todos os mimos que se permitiam aos filhos naquele tempo, motivos pelos quais suas irmãs mais velhas lhes dedicarem um inconfesso sentimento de inveja, em virtude de a julgarem a queridinha da casa e, por efeito, a usurpadora das atenções gerais.

Ciúme à parte a senhora Dilaceri sempre a defendeu com muita veemência, afirmando que todas as suas filhas lhes eram iguais.

Porém, na prática, este fato não era tido como verdadeiro; mesmo porque estava a vista de todos, os carinhos e atenções do casal dedicados diariamente à pequenina.

Assim, aquela mimada caçulinha foi crescendo em graça no coração daquele lar, contudo, devido às suas irmãs lhes antecederem em idade, estas nunca participavam dos folguedos da recém-chegada.

Marcele Christie, esta sim, era a imagem da mãe. Inteligente, estudiosa e, aos cinco anos, já demonstrava dedicação às coisas da casa, sempre atenciosa na arrumação dos seus objetos pessoais, aos quais era demasiadamente apegada.

Loren Christine era a mais velha, já tinha sete anos e, até então era a mais afeiçoada ao pai, com o qual tinha bastante semelhança; sobretudo porque dele herdara os olhos claros e longínquos, além da sua resoluta maneira em resolver problemas.

Ninguém poderia dizer que o senhor Monti não era um encanto de gente! Dedicava-se com esmero à criação das suas filhas! Era calmo, carinho e tinha amor paterno acima do usual, uma pessoa afetiva como nunca se vira! Entretanto, apesar dos seus dotes paternais e morais vistos por toda agente, via-se intimamente torturado por idéias menos belas, adversas daquela admirável e honrada figura de modelar pai de família.

Naquela época, estava ele, que se diga a verdade, além de envolvido no labor e esmero para com a família, fixamente atormentado em projetos sobre como erguer seus bens.

O caixeiro dos velhos tempos, casado que era com filha de ricos fazendeiros, vivia de favor com mulher e filhas em casa do seu sogro; o coronel Zezito e sua esposa dona Constância. Onde, certamente, nada lhes faltavam; a mesa era-lhes farta, havia o bem vestir-se das roupas elegantes e passeios freqüentes à capital da Província; trajeto que se fazia a cavalo até a estação da linha férrea, de onde se tomava uma velha locomotiva movida à caldeira.

Imaginava o Sr. Monti em devaneios, mesmo não se corando pelo mal pensar, dono daquele enorme patrimônio do seu sogro, um homem que, segundo o seu julgamento sem mérito para possuir tanta fartura.



Capitulo 2



A fazenda Alegria era um vale, formado por cadeias de montanhas, matas, rios e riachos nascentes nos próprios domínios. Só de boas terras mais de cinco mil hectares, sem contar os bois e roças de cacau já em safra que produziam todos os anos mais de trinta mil arrobas das amêndoas, deixando um lucro de quinze milhões de cruzeiros. Safra a safra, o dinheiro abarrotava os bancos da Capital, parindo juros e dividendos que ninguém conseguiria conceber.

Imagine - dizia ele. Um homem desses, que mal sabe escrever o próprio nome, não tem merecimento para gerir uma fortuna destas.

E, punha-se a olhar as cabaças doiradas do cacau pendidas dos troncos, quase a rachar os galhos; os brotos viçosos, roxo avermelhados, crescendo, para logo estarem cheios de frutos. Aquilo era uma maravilha a não mais acabar.

Tinha que dar um jeito em tornar para si aquela roça, que não lhe era do pertence por direito, mas, sim por herança.

- Justo - pensava ele. Corretíssimo – afirmava. Enquanto seus olhos, soltos na imensidão da fazenda, percorriam os distantes horizontes devorando gulosos de desejo, tudo que se deparavam pelos limites da propriedade.

- Este velho é uma desgraça - dizia o Sr. Monti. Forte como um cavalo, tem vigor igual a um leão; se estiver que esperá-lo baixar à cova para desfrutar dessa fazenda, é quase certo que irei primeiro.

- Não posso ficar inerte! - dizia para si. Comendo de suas migalhas, quando tenho capacidade em tornar-me dono disto tudo. Por que não? Multiplicar e expandir estas terras são tarefas minhas para pouco tempo.

- Posso - imaginava ele - pôr fim as águas que correm para outras propriedades! Uma boa idéia, pois tudo vem das minhas nascentes, e comprá-las por preços irrisórios; terras por melhores que sejam sem água não valem quase nada.

- Onde já se viu um desperdício destes! Dar-se água de graça aos outros?

- Se fosse esse o caso arquitetava. Faria uma barragem, e, no verão soltaria o líquido aos poucos, regrando, e o venderia a peso de ouro. Podiam, dizia ele, se assim for, protestar à vontade, mas teriam que comer à minha mão, daquilo que lhes quiser dar.

Senhor Monte tinha a idéia fixa, e nutria com paixão aquele íntimo desejo. Ficava absorto sentado durante horas à cadeira de balanço, ali na varanda da casa grande, de onde, sem esforço podia ver os vastos espaços da mata cobrindo as plantações, enquanto os empregados se esforçavam no trabalho do cacau.

Uns pisoteavam as amêndoas nas barcaças, outros preparavam as estufas para a secagem, enquanto que muitos estavam na capina do mato próximo a casa; ali onde as arvores altas abrigavam as plantas do cacau; que se assentavam à sombra delas para produzir os seus frutos.

Presenciava com ávido interesse o enorme carregamento deles, ao mesmo tempo em que um brilho intenso de cobiça aparecia e acendia-lhe o desejo no olhar.

- Este ano vai dar uma carga do capeta! Murmurava por entre dentes, eufórico, com vista larga a pairar sobre as terras.

- A produção da fazenda Alegria será enorme; é fato contado que baterá na do ano passado, pois se esperam colher mais de trinta mil arrobas! É cacau – imaginava ele - que nem o demônio acaba!

Saboreava assim a vindoura e farta colheita, como se já fosse sua; cada amêndoa dos frutos produzidos na fazenda do Coronel Zezinho não mais pertenceria ao seu legítimo proprietário, era, no seu entender, sua! Somente sua... Aquilo era mesmo coisa decidida.

Não se importava se fosse preciso usar meios lícitos ou ilegítimos a fim de concretizar os seus intentos; era certo os utilizaria, mesmo a despeito de prejudicar o pai de sua esposa. Tinha como líquido e certo que o velho, como acreditava, não sairia deste mundo tão cedo, tampouco lhe cederia às terras de bom grado!

Sabia-o! No entanto, avaliava bem, pois teria de manter a sua mulher alheia aos seus planos, pois estava ciente de que Mercedes não concordaria com eles, afinal chegava-se muito ao pai, o qual lhe era bem afetuoso.

No mato, ao longe, o canto melancólico de um pássaro veio despertá-lo de suas concentrações. Aprumou-se à surrada cadeira de balanço, cerrando os olhos como se procurasse evitar uma repentina réstia de luz que veio bater-se no esteio ao lado.

Quem por ali o visse naquela hora, e à sua feição se deparasse, nunca conceberia o que se esboçava em sua cabeça. Refletia, dava tratos à imaginação e arquitetava coisas, sabia que alguma idéia haveria de lhe surgir à mente.

Afinal, gabava-se de ter sido o mais sagaz de todos os caixeiros de seu tempo; sempre achara jeito de vender mais e mais. Não se implicava com lisura ou ética em seus negócios, se alguém ficara ou não satisfeito com os seus artigos, isso lhe era totalmente indiferente, nunca conseguira tirar-lhe o sono uma noite sequer, o que lhe importava mesmo era vender, função que sempre soubera cumprir muito bem.

O talhe apurado, o sóbrio trajar que lhe cobria o jeito fino e cordial, consistia em subterfúgios de que se valia para agradar ao desavisado freguês; para tentar vender-lhe chitão como se fora seda pura; isto, para ele, era coisa mínima. Gabava-se em ser dono de astúcia para muito mais!

Relembrava-se de um dos seus truques mais usados: deixar passar em aberto nos pedidos a quantidade dos itens, os quais eram subscritos pelos clientes em fé, depois os completavam abusivamente, de modo que só se percebia esta sua astúcia na hora da chegada da mercadoria comprada. Os fregueses, mesmo desgostados, não restituíam o excesso da mercadoria comprada. Isto porque já haviam saldado o frete e outros dispêndios; optando-se, devido a isso, em ficarem com aquele produto. Mesmo não o tendo requerido.

Se lhes reclamavam por isso, inventava uma cara de santo, desculpando-se, com tamanha desfaçatez acabando por convencê-los de que, se assim o fizera fora devido a uma notificação de acréscimo em última hora que lhe fizera a empresa. Convencia-os de que o excesso dos itens fora-lhes faturado no preço antigo, com benefício para aqueles que dizia serem seus queridos amigos, e clientes de longas datas.

Apesar de tudo, estava convicto de que o seu modo de agir era absolutamente normal. A aparente falta de escrúpulos não manchava em nada o seu caráter. Negócios são negócios, dizia filosofando para si mesmo. Requer um trato mais duro no relacionamento.

E continuava o seu monologo.

-Para alguém ganhar é preciso que outros percam! Os bens que existem na face da terra não são infinitos; se dividi-los entre todos os habitantes do planeta haverá saldo negativo. As populações, como são sabidas, dizia, crescem desordenadamente e as riquezas não conseguem acompanhá-las.

Neste particular, acreditava o Senhor Monti que as guerras violentas, doenças e pragas virulentas, representavam mecanismos naturais para regulagem do número das populações. E, portanto, bem-vindas. Deste modo, segundo ele, o mundo seria mesmo dos espertos! Os, que numa espécie de seleção natural, permanecem livres dos malefícios da terra. Certamente, serão recompensados com uma existência bem melhor.

E, concluía dizendo que: ganhar dinheiro não seria pecado, tão pouco o método a ser utilizado para adquiri-lo; tudo não passa de detalhes, de simples relacionamento comercial. A pureza, dizia, está nos sentimentos legítimos, e não nos negócios, e, sentimentos puros ele os tinha de sobra.

Freqüentava um culto protestante toda semana, orava ao seu criador, arrecadava e distribuía donativos aos irmãos necessitados, visitava enfermos e os consolava com as palavras do livro santo. Fazia inúmeras vezes vigília aos mortos, os acompanhando piedosamente até sua morada eterna.

Seu nome e um retrato emoldurado constavam-no em destaque entre os beneméritos da irmandade no salão nobre do templo.

- Estas sim, falava ele, são obras de retidão e pureza de espírito! Não se pode confundi-las, nem contaminá-las com triviais relações, ditas meramente comerciais.

Concluía então, afirmando convicto que tinha esposa e filhos e os amava de coração, mas era preciso criá-los com esmero e boa educação. O que almejava, não era só para si. Claro que uma repentina herança lhe cairia muito bem. Mesmo contradizendo o falatório do lugar tinha coração, não desejava a morte dos pais da sua mulher, a quem amava mais do que tudo.

Censuravam-no de interesseiro, golpista do baú. Alguns dos seus irmãos da fé, o apontavam de viver em pecado incúria. Ao gerir como tesoureiro da irmandade as receitas dos dízimos; que, segundo essas boas almas, careciam de validação quanto à sua correta aplicação em obras assistenciais. Além do que, comentavam sua avidez no arrecadar das oferendas e avaro em oferecê-las ao pobre.

Defendia-se o Sr. Monti dizendo: detalhes, meros descuidos matemáticos, sem motivos outros para desaprovação. O Criador, que tudo vê, saberia de suas pias intenções, entregaria o seu julgamento a ele.

Não era perfeito, decerto tinha ambições. Ter vontades em gerir os bens do pai de sua esposa não era algo ruidoso ou de má índole; enxergava-lhe a incapacidade de levar à frente o que possuía, fazia-lhe, pois, um benefício.

Perdia o sono todas as noites só ao imaginar que o velho, como falava, poderia jogar aquilo tudo fora a qualquer momento. A educação dos netos, o desamparo na velhice! Não, isto não, jamais o consentiria. O futuro da família corria perigo. Tomaria as providências, já havia pensado em demasiado, chegava a hora da ação.

Naquela noite recolheu-se cedo. Deitou-se logo após o jantar, que comeu sem muito interesse. Apenas uma colher de arroz, um ovo cozido e uma fatia de pão; a frugalidade tinha nome estava preocupado, pensando, imaginando!

Não dormiu nada, apenas fingiu. Sua mulher não deveria desconfiar de seus propósitos. Já havia concebido o seu plano para apossar-se da fazenda Alegria! Precisava repassar as idéias. Conferir tudo. Não podia deixar furos; as peças tinham que se encaixar.

Estava tenso! Suava muito; o suor escorria-lhe em bagos grossos, deslizando para o travesseiro. Um suco de maracujá cairia bem, pensou o Sr. Monti. Teria que se acalmar; não podia, nem devia dar conhecimento de suas idéias. O insolúvel não existe quando se tem boa vontade e tempo, e os possuía em excesso. Havia apenas uma questão a considerar, e, no seu entender, era de ordem ética.

A consciência lhe acusava de ingrato! Afinal, era devedor do seu sogro e favorecido dele. Não lhe seria ingrato! Mesmo acreditando ser esse um sentimento próprio da natureza humana; era desejos íntimos, e, certamente legítimos, do beneficiado ser ingrato com o benfeitor! É uma lei da natureza humana, que não poderia se ele a mudá-la.

Não sabia explicar-se a respeito desse seu pensar. Talvez tenha lido em algum lugar, talvez um livro. Não saberia dizer; experimentava na própria pele o desgosto da dependência material, ao receber coisas das mãos de outro e que não fossem frutos do seu labor. Daí a repulsa natural por quem lhe provia. Segundo ele, era corretamente adequado tal proceder.

Diante de tal pensar não poderia mais recuar! O veículo ilusório das suas trôpegas idéias largara-se sem freios ladeira abaixo, nada mais o demoveria, nem poderia detê-lo.

Assim, o dia veio surpreendê-lo ainda na cama; sem dormir, pensando, conferindo, e reparando os eventuais furos do seu plano:

-??? ?...................................................?................................................................................................!.... Certo!...

A noite mal dormida não lhe parecera incômoda, antes fora benéfica. Por conta disso, banhara-se logo cedo e tomara um lauto café, onde se saciara com tudo o que havia à mesa: banana frita com aipim cozido, manteiga de garrafa, café com leite, biscoitos, bolo de puba, sem faltar cuscuz de milho com ovos estrelados.

Logo, partiu a caminho das plantações de cacao; foi andar pelas roças como lhe era o costume.

Estava feliz e abarrotado! Por conta disso acendera um fino charuto Suerdik mandado vir da Capital, com a intenção de usá-lo só em ocasiões especiais. E aquela o era! Finalmente encontrara um meio de por tudo aquilo em seus bolsos.

As baforadas largas que puxava do charuto fizeram-lhe bem! O fumo ascendia pelos ares formando uma nuvem branca, que, iguais a suas idéias, pareciam querer ganhar alturas infinitas. Nos pés de cacau os frutos balançavam aos ventos; indiferentes à sua passagem cresciam a cada momento, em galhos e folhas, alastrando-se pelos espaços do terreno em exuberância nunca vista.

Nada escapava aos olhos gulosos do Sr. Monti, que pareciam querer pular das órbitas ao encontro das cabaças cor do ouro, que cresciam desde os troncos até as raízes rentes ao solo.

E enquanto suas botas de couro esmagavam as folhas secas caídas ao chão, em pisadas firmes o Senhor Monti deixava-se sonhar:

- Quanta riqueza – dizia. Meu Deus! Esta bonança jamais irá se acabar!

E, imaginava ele, pensar que, no falar do Coronel Zezito, aqueles campos quando de sua chegada eram mato puro! Ninguém queria, nem de graça; eram doenças, mosquitos e febres malsãs. Foi só plantar o cacau por debaixo da mata que a região deu um salto em frente; o cacau deixou muita gente rica.

Conhecia muito bem a vida da gente do lugar! Muita história saberia contar. Havia ali próximo o Major Adolfo dos Anjos, homem severo e rico, possuidor de muitas roças; era quase dono da região.

Os filhos estudaram na Capital, tinha um já médico clinicando na província; era um pediatra dos bons e muito procurado pela classe dos abastados; aqueles que podiam pagar os altos preços das consultas. O doutor sabia o que fazia! Era a voz de todos.

Outro estava a se formar bacharel, a menina seria engenheira dentro de pouco tempo. O cacau dava-lhes e sobrava para tudo! O Major não perdia oportunidade para provar a força do dinheiro que possuía. Onde só existiam estradas para carros de bois comprara um dos primeiros carros do lugar. Viagens ao exterior, palacetes, comidas e especiarias importadas; caviar russo, charutos cubanos, champanhe francês, amantes e noitadas de farras nos cabarés da capital. Coisas que pareciam incompatíveis com a rudeza do lugar, e que no dizer dele era só para gente fina, gente igual aos coronéis do cacau.

Sr. Monti, enquanto apertava o charuto Suerdik entre os dentes, suspirava ofegante, cheio de inveja da fama do Major!

- Deixa-o estar, também terei os meus dias de glória! Deitarei abaixo a velha casa dessa fazenda e em seu lugar soerguerei outra, mais decente, maior, com janelas para todos os lados, quatro águas e rodeada por varandas. Aos móveis atuais, terão por destino à fogueira. Cederá lugar a outros que determinarei fazer. Tudo no jacarandá maciço, trabalhado por respeitáveis artesões, gente da fina arte da carpintaria.

Faria mais, compraria uma jóia invejável. Uma pedra preciosa de mais de cinco quilates; um diamante rosa e desfilaria por todos os cantos com a pedra faiscando no dedo anular esquerdo, seria o símbolo lapidado da sua superioridade.

Ah! Mas que todos o aguardassem no dia da inauguração da nova casa! Sim, faria uma festa, daquelas de humilhar; convidaria todos os grandes fazendeiros e não lhes faltaria nada! Mostrar-lhes-ia quem era o maioral por aquelas bandas. Dois bois, só para o churrasco; bebidas decentes, só uísque importado, vinhos do Porto, conhaque Macieira e comidas finas. Contrataria cozinheiros franceses, estes sim não o envergonhariam, saberiam fazer as coisas direito.

E lá ia o homem improvisando os seus projetos de riquezas, que consumiam quase todo o tempo da sua vida ociosa. Andava pelos campos da fazenda deliciando-se com o lugar. Olhava tudo até se cansar e somente voltaria à sede da fazenda ao findar-se do dia, à chegada da noite! Só quando as sombras se adensassem pelas baixadas, depois que a escuridão não lhe permitisse mais ver as plantas carregadas de flores, birros e cabaças daqueles cacaueiros que seriam seus

- Ah! Murmurou- mas naquela noite o sono lhe pegaria fácil, adormeceria como um anjinho nos braços da Virgem Imaculada.

O projeto já se efetivara, só faltava pô-lo em prática. Não tinha pressa, saboreava com vagar, desfrutava gota a gota o vinho raro das idéias que lhe indicava o caminho do sucesso próximo.

- Nada como dar tempo ao tempo! Está no Livro Santo que nenhuma árvore terá fruto antes do seu tempo. Esperarei, pois! A pressa é inimiga da perfeição, dizia o Sr. Monte.

Ao lado destes seus projetos e andanças pelas roças, era comum vê-lo com a sua caçulinha Valerie no colo, ou enganchada em seu pescoço. Ela que já estava a completar seus três aninhos, era um mimo só. Que desvelo, que pai carinhoso! Dava-lhe inúmeros beijos e afagos mil. Aquela criaturinha era-lhe a maior riqueza! Haveria de dar-lhe, dizia, uma educação primorosa, aliás, corrigia-se, como já vinha fazendo com as demais irmãs mais velhas.



Capitulo 3



Foi nessa ocasião que estourou uma revolução no Sul do País! Era liderada por um jovem oficial desertor do Exército Nacional, que Se chamava Louis. O insurgente

pretendia a separação do seu estado dos demais da Federação.

Reunindo um exército de cavaleiros revoltosos, marchou em direção ao norte do país, varando os sertões inóspitos, arregimentando simpatizante à causa e praticando vários desvios ao longo de sua jornada, ou seja: confisco de gêneros e montarias que servissem ao seu rebanho.

A idéia inicial deles de separação acabou em querer derrubar o Governo Federal.

Em virtude de que lhes viesse ao encalço à força legal, e antes que se deparassem, era preciso uma movimentação rápida daqueles revoltosos pelos povoados e vilas, no afã de conseguir recursos para seus ideais.

Com efeito, os moradores dos lugares visitados pelos insurgentes, como era de se esperar, estavam alheios à causa que os moveram à atividade revolucionária, logo que apareciam punham-se em polvorosa. Era de se ver o corre-corre das gentes para o mato, indo a esconderem-se em locais ignotos; deixando suas casas às pressas, saindo apenas com o que lhes eram necessários à sobrevivência. E por vezes, apenas com a roupa do corpo. Punham-se por lá até que se certificassem da retirada dos indesejados.

Avisado por recados irônicos dos invasores, confirmando a vinda e lhes pedindo que preparassem o café, pois levariam os “biscoitos” (uma clara alusão às balas de seus fuzis).

O Coronel Zezito indo contra aos demais que fugiam, resolveu se juntar a outros fazendeiros do local e resistir-lhes. “Defenderia o patrimônio, disse, até a morte se possível for”.

Dito e feito. Mandou cavoucar trincheiras, conseguir armas e munições, preparando tudo como um general experimentado nas artes da guerra faria antes de uma batalha importante. Determinou posicionar atiradores em locais estratégicos. Pessoa recatada que era, surpreendia a todos, dava ordens e movimentava-se com vigor e determinação incomum para sua idade.

Dentre eles, quem mais se espantava era o Senhor Monti. Jamais imaginaria o velho, pai de sua esposa, ser dono de tal ardor na defesa de seus domínios; julgara-lhe um fraco, e não era. Por ele, Monti, ser-lhes-iam abertas às porteiras. Aquela horda de celerados acabaria indo para outras paragens; que se fartassem, havia o bastante! Não se arriscaria em medir forças com eles. Mas o velho estava determinado, não lhe ouvia os conselhos; quem sabe aquilo não seria uma demonstração cabal de sua demência?

Não podia Perder tempo em conjecturas. Sr. Monti sabia que a batalha era iminente! Mas, ainda lhe restaria algum tempo de apanhar as meninas e a mulher e correr para o mato; atravessaria a lagoa pantanosa que havia nos fundos da casa e se esconderia nos morros existentes além.

Que o velho, já que assim o desejava, se acabasse ali lutando! Talvez isso até facilitasse as coisas; voltaria do seu refugio após a saída dos revoltosos, enterraria o maluco do pai da sua esposa e assumiria a fazenda de vez.

Contudo os fatos deram-se diferentes: Louis, comandante dos rebeldes, sabedor dos preparativos para sua chegadaer tempo nem homensvos para recebacilitasse as coisasireito!, e inteligente que era, achou sensato não perder tempo, nem homens, em brigas inúteis com aqueles tolos fazendeiros.

Convenceu-se de que precisava guardar forças e munição para um eventual encontro com as Forças Federais; esta que sempre chegava depois que ele saía de um local, pois não pareciam interessados em um confronto, limitava-se em persegui-lo; desejavam vencê-lo pelo cansaço que julgavam já estar a lhes atingir.

Louis os pegou de surpresa, aparecendo à porteira da fazenda antes da hora marcada. Do lado do Coronel foi um alvoroço de gente, correndo para as armas! Só não abriram fogo desordenado porque foram avisados para esperar o aviso. Louis desabotoou o paletó calmamente. Estava desarmado; vinha consigo apenas duas ordenanças atentas, enquanto este descia calmamente de seu cavalo. Foi retirando as esporas de prata, que tilintavam, chispando ao sol, que naquela hora já vinha mostrando à cara no horizonte.

Era uma figura impressionante aquele homem magro, alto, tisnado, de tez curtida e caminhado elegante; trajava-se de branco e tinha o paletó de linho aberto, vendo-lhe à cintura a cartucheira sem as armas nos coldres.

Foi se aproximando bem tranqüilo; no meio do caminho parou e acendeu um cigarro de palha. Atirou duas baforadas para o alto, com o olhar distraído para a fumaça que se perdia nos ares.

O Coronel Zezito já o esperava ao pé do alpendre da casa e foi logo lhe estendendo a mão, que o outro apertou com alegria. Pareciam dois grandes amigos se felicitando. O Coronel foi o primeiro a falar:

- Então, Senhor Comandante Louis, a que devo esta honra de tão ilustre visita?

E, antes mesmo de receber uma resposta, acrescentou.

- Espero que não me tenhas trazido os prometidos “biscoitos”, pois a mesa já está posta para o nosso café - fez uma pausa, indicando-lhe o caminho para mesa.

- Veja o senhor mesmo os quitutes que lá estão, creio ser suficientes para agradá-lo; sem a necessidade de se acrescentar nenhum outro tipo de guloseima que tenhas por acaso trazido.

Louis sorriu desconfiado, o Coronel fazia uma brincadeira aludindo aos famosos “biscoitos” que lhe prometera trazer. Preocupado, olhava para os lados, não via ninguém além do Coronel à sua frente! Porém sabia por dever de profissão no combate, que a camaradagem deveria estar entrincheirada por todos os cantos daquela propriedade. E pensou consigo. Hum, bem treinado esse pessoal, não lhes escuto um suspiro sequer.

- Ah, pois Coronel! - falou com um sorriso maroto nos lábios - não se fie muito em recados pela boca dos outros. Sempre gosto de dá-los pessoalmente. Por isso estou aqui, lisonjeado em conhecê-lo. A sua boa fama de homem honrado lhe precede.

- Ora, Senhor Louis, nem tanto assim, exageram muito esta gente do lugar, para mais, ou menos! Creio que seja para mais. Mas, por favor, não me faça cerimônias, disse dando-lhe tapinhas nas costas, vamos entrando, venha, sei que adoraria provar do nosso café! Foi colhido aqui mesmo na propriedade; grão selecionado sabe? A visita é merecedora... Venha me acompanhar à mesa.

E gritou lá para dentro da sala:

- Gente, que falta de ação é essa?! Temos visitas importantes; preparem-se logo...

Ao ouvirem estas palavras, a casa inteira, até então imersa no mais absoluto silêncio, entrou em efervescência! Formou-se uma agitação geral; mulheres carregando bules com café, leite, bolos e outras tantas coisas que mal cabiam por cima da enorme mesa de Jacarandá maciço que ocupava quase o tamanho da sala.

Logo apareceu o Senhor Monti que desistira da idéia de fugir para o mato e preferiu ficar em seu aposento; vinha com mulher e filhas e logo que foram apresentados ao visitante, sentaram-se à mesa.

O café transcorreu em clima de muita cordialidade, onde o visitante era requisitado por todos que queriam ouvi-lo. O Senhor Monti aproveitou-se da oportunidade e perguntou-lhe sobre seus planos de revolução e o que realmente aspirava com as suas idéias de derrubar o Governo?

Louis, que a princípio parecia resguardar-se, já estava mais à vontade. Explicou-lhe que o movimento tivera início como uma idéia separatista, entretanto acabou evoluindo-se para revolução; a qual cobiçava instalar uma República Socialista, onde as relações entre o capital e o trabalho fossem regidas por uma doutrina social, econômica e política que propunha alguma forma de propriedade coletiva dos meios de produção.

O comunismo, segundo ele, seria a solução para diminuir as desigualdades entre as populações do norte e sul do País. Uma que era pobre e a outra extremamente rica. Essa desigualdade, dizia ele, era a causa do entrave para o crescimento do país, que se rico era, não distribuía equitativamente as suas riquezas entre todos.

- Vejam senhores, que minhas incursões pelo Nordeste, apesar do inimigo do país contradizer, têm motivos outros, que não são a rapina dos bens particulares das pessoas.

- E prosseguiu dizendo: É claro que não se pode fazer uma revolução vitoriosa sem ajuda da população, que deveria ser a maior interessada. É ela que está oprimida pelo capital, mas não se dá conta disso. Por onde passo é como se tivesse chegado o capeta! Todos correm a minha chegada! Ninguém quer saber de revolução, é um nome maldito; comunismo é coisa do diabo, somos bichos malvados que comem criancinhas. Isso é um absurdo!

- Então, continuava Louis, como fazer uma transformação radical, e por princípio, violenta, de uma estrutura política e social quando ninguém tem interesse nisto?

- Digo-lhes mais, estou muito decepcionado com esta gente... Pessoas sofridas, que não têm forças nem para se libertar do jugo de seus exploradores! Fez uma pausa para saborear um gole de café e prosseguiu:

- Insurreição tem custo. É preciso armar-se, alimentar-se e dar boas montarias aos combatentes e, se por falta de interesse, ou mesmo ignorância com a nossa causa não nos dão de boa fé, temos que tomar-lhes à força... A revolução está em curso e não se pode deter-se à espera desses inúteis indecisos.

Todos lhe ouviram calados; o Coronel Zezito de quando em vez sacudia a cabeça em sinal de entendimento, mas ninguém ousava interromper o visitante que estava à mesa como um convidado e, portanto, seguindo as regras da boa hospitalidade da casa, não deveria ser molestado, tampouco lhe contestado o mérito de certo ou errado.

- À boca pequena, digo-lhes que esta revolução está fracassada. E foi com este pensamento na cabeça que fiz questão de vir para esta visita.

- Peço-lhe Coronel concessão de pouso para descanso em suas terras. Logo, recuperados desta longa marcha, irei aos meus corajosos homens, e lhes direi que nossa atividade revolucionária seja encerrada. Mesmo a contragosto é necessário que se faça, pois não existe mais sentido continuarmos a nossa luta.

Todos ali, calados, ficaram pasmos; de certo modo, se surpreenderam com suas últimas palavras, mas ninguém deu mostras em sobressaltar-se, e ele prosseguiu:

- Dir-lhes-ei que o País ainda não está suficientemente maduro para uma revolução nos moldes como queremos; o que se pode esperar de uma gente apática, afeiçoada a indolência e acostumada a ser explorada? Nada... Deixarei, pois, que sigam os seus ignorados destinos... Talvez, algum dia esse povo acorde de seu berço esplêndido... Só espero que não lhes seja tarde demais.

Acabada sua preleção, Louis agradeceu educadamente e pediu licença a todos para se retirar; aguardaria uma resposta do Coronel. Este o acompanhou até a porta, onde se despediram; apertaram-se as mãos e, o insurgente que já se encaminhava em direção à porteira, onde o esperavam as ordenanças; voltou-se quando o Coronel dirigiu-lhe a palavra:

- Senhor Comandante Louis...

- Sim, pois não, às ordens, Coronel - disse retornando ao seu encontro.

- Não precisa esperar por uma resposta minha.

- Então, Coronel. Que me diz?...

- Digo-lhe que minha autorização já está dada.

- Ah! Obrigado, Coronel. Agradeço-lhe, como homem justo que é. E lhe digo mais, muito nos honra tê-lo em nossas amizades.

- Ora! Chame os seus homens e desde então faça como se estivesse em sua casa.

- Pois então, Coronel, assim será arranjado.

- Estou - disse-lhe o Coronel - debandando a minha gente, ordenando-lhes que guardem as suas armas e que todos voltem para suas ocupações. O trabalho com a terra os espera não se pode perder tempo em inúteis querelas! - E apontando para os cacaueiros abarrotados de frutos complementou:

- Esses aí não podem esperar para serem colhidos e ignoro qualquer outra coisa neste mundo que não seja o trabalho para gerar riquezas!

- É verdade – replicou Louis - Trabalha-se de muitas formas... Até uma revolução é um árduo trabalho. Então farei o mesmo... Após o merecido descanso dos meus homens nestas suas terras, dar-lhe-eis ordens para que cada qual procure o seu rumo e suas ocupações. Aqui terminará o nosso acalentado e engrandecido sonho revolucionário, que sem dúvida se ressentirá mais tarde o país, que clama por mudanças já. E pondo o olhar fixo no coronel, arrematou:

- O futuro não nos pertence. Se não foi possível agora por minhas mãos, outro certamente o conseguirá.

- Uma pena, disse-lhe o Coronel sorrindo, acabo por ficar simpatizante dessa sua idéia, e bem poderíamos levantar esta bandeira juntos mas, creia-me, já estou muito velho para tentar mudar o mundo.

- Nunca, jamais se estará velho, Coronel quando alimentamos projetos no coração. Fica-se velho no momento em que se para de sonhar.

- É, pode ser.

- Mudar o mundo, Coronel, é uma aspiração que existe desde os tempos mais remotos. A idéia existe sim, mesmo que esteja guardada nos corações de alguns poucos idealistas.

Louis calou-se, fez-lhe um gesto de positivo com o polegar levantado; o Coronel Zezito sorriu-lhe e este marchou até a porteira, onde o esperavam. Foi logo pondo as esporas que pendiam atadas à cinta, em seguida montou seu cavalo e, sem olhar para trás, em meio a uma nuvem de poeira, saiu em disparada.

Já estava a completar uma semana que os revoltosos se encontravam em terras do Coronel Zezito. Durante o transcorrer deste tempo, muitas foram às festas que ali aconteceram. No acampamento reinava um clima de irmandade. Ali não havia perdedores nem ganhadores. Todos estavam vitoriosos!

Os companheiros de lutas deveriam partir e cada um tomaria o seu destino. Certamente muitos deles jamais voltariam a se encontrar. Os moradores dos povoados próximos vinham todos para os folguedos, moças e rapazes que não perdiam por nada uma boa festa com música, bebidas e comida farta. O Coronel Zezito participava e colaborava com tudo.

Afinal, chegou o dia das despedidas. A festa terminou ao amanhecer, foi a melhor de todas, uma algazarra sem fim, ouvira-se o burburinho a léguas de distância.

O dia acabara de raiar. As luzes pálidas do sol começavam a se esparramar pelos morros e baixadas da fazenda Alegria; as folhas dos cacaueiros já se despediam do orvalho da noite e logo espichariam os seus brotos arroxeados, ávidos em seiva que vinha das raízes aprofundadas no interior daquela terra rica e dadivosa. Os troncos das plantas botariam os seus frutos. Os galhos estariam cheios de cabaças; em cada pé daria mais de cem. As amêndoas secas encheriam sacos e mais sacos, milhares de quilos movimentariam centenas de trabalhadores; os depósitos de compras do cacau se espalhariam por todos os cantos e as cidades cresceriam, era um ciclo de riquezas a não mais acabar. O cacau era-lhes o sangue que germinava e trazia benefícios financeiros da terra.

Entretanto, alheia à cobiça e aflições dos homens fartos da riqueza q da terra fria, esta, por si jamais parecia despertar emoção alguma pelas dádivas que produzia! O solo mudo nutria-se apenas de matéria orgânica para produzir o ouro que embevecia os humanos. E, isto lhe bastava; esta era a lei estranha do mundo inanimado.

- Meus amigos, atenção meus companheiros revoltosos... Todos fitavam atento o homem que falava. Era Louis que os convidava a se aproximarem.

- Bem sei o quanto me é difícil este momento... Depois de longa jornada viajando por terras deste País, eis que me chega o momento angustioso para dizer-lhes que, a partir de agora darei por finda a nossa revolução...

Ouviu-se então um grito uníssono de espanto.

- Ohhh!!!

- Mas, continuou Louis, neste momento manteremos a nossa cabeça erguida, porque se não nos sagramos vencedores desta causa, também não somos perdedores.

- Vitória! Vitória! - gritaram todos.

- Estamos voltando para casa após nossa insurreição, sem que se fosse derramada uma gota de sangue sequer... Somos vitoriosos, sim, porque afinal acabamos conhecendo o nosso povo, os nossos irmãos do Norte... E eles nos fizeram entender que não estão ainda preparados para uma revolução! E é em nome deste povo amigo e hospitaleiro que lhes digo: se esta gente sofrida e sem animo de luta está satisfeita com o que possui, então o nosso trabalho está, pois, finalizado.

- Vitória... Vitória... Era o coro.

- Amigos, escutem. Estamos dando por encerrada a nossa campanha. Voltemos para nossas casas. Que todos tomem os seus destinos... e é meu desejo que sejam felizes. Mas, antes da minha última ordem de comando, quero agradecer aqui presente, a este homem bom e que pretendia lutar contra nós e se tornou nosso amigo e benfeitor

- Oh! - gritaram todos.

- Estou lhes falando do Coronel Zezito, proprietário dessa maravilhosa fazenda Alegria, e que tão bem nos acolheu.

- Um vivo para o Coronel Zezinho! - gritou alguém do meio da multidão!

- Viva, viva, viva o coronel! - foi a comoção geral.

- Muito bem, amigos - falou Louis – lhes peço agora que tomem seus caminhos, o sonho de revolução não mais existe.

Se este país não está maduro o suficiente para uma revolução, que pelo menos, quem quer que o governe, faça-o com sabedoria e diminua as gritantes diferenças sociais. Tenho lhes dito. Disssperrsar!

Assim foi o grito final do comandante para aqueles que o seguiam.

Foi uma loucura o que se viu! Após essa palavra, era gente evadindo para todos os lados, correndo para suas montarias, desmontando barracas, carregando mochilas, guardando armas. A confusão demorou horas, até que o último deles finalmente desapareceu no horizonte.

O Coronel Zezinho permanecia desde cedo acompanhando a movimentação na partida dos revoltosos, não arredou o pé dali até o encontro com o Comandante Louis, que aprontou a sua montaria, já se preparando para partir; seria acompanhado por duas de suas ex-ordenanças, agora amigos, com os quais seguiria na jornada de volta, sabem-se lá para onde!

-Louis - disse o Coronel, entendendo-lhe a mão trêmula.

-Coronel... Faltam-me palavras... Não saberia o que lhe dizer.

-Não, não precisa falar nada!... Essa é a vida de um guerreiro; eles não namoram as despedidas...

-Ah, Coronel, fico até encabulado com suas palavras! Este tempo já é passado. Não sei quantos momentos terei na minha atribulada vida para relembrar dessa aventura. Jamais acreditei na felicidade, e tinha em mim que ninguém seria feliz nesta terra. Contudo, experimentei belos dias aqui...

-Porque não fica? - disse-lhe o Coronel, tocando- lhe os ombros largos e recurvados, ao tempo em que lhe apontava para o interior da roças de cacau.

-Aqui tem muita terra boa e sem destino. Você, se quiser, poderá ter por merecimento um pedaço dela para fazer seus plantios. E, mostrando um rosto sério arrematou.

-Estou imaginando como seria bom tê-lo por perto... na qualidade de um ótimo vizinho.

-Obrigado, Coronel! - falou Louis, lançando um melancólico olhar para o lado dos cacaueiros que já estavam botando seus frutos - Quem sabe, quem sabe um dia desses... Quem sabe?... Creio que ainda não estou curado deste velho sonho de mudar o mundo.

-Vá, se o quer, persiga a sua imaginação! Mas lembre-se que, já estou velho, e posso não estar por aqui quando retornar.

-Quando se tem sonhos, Coronel, ninguém fica velho. A velhice é apenas uma conseqüência biológica; nada tem a ver com o espírito! Este sim, o nosso cérebro pensante é que nos aviva quando temos os nossos projetos. Mas, quem sabe, um dia desses, quando menos se esperar, apareço aqui trazendo os biscoitos prometidos para tomarmos juntos com o chocolate da sua safra.

O Coronel não se conteve, soltou uma gargalhada.

Os dois novos amigos despojando-se de seus sentimentos esqueceram-se naquele momento dos aflitivos dias passados e se abraçaram.

Louis deu um rápido passo para trás e se afastou saltando de imediato ao cavalo, saindo de contíguo em ríspida carreira sem mesmo tentar olhar para trás.

O Coronel ficou só, e ao passar a vista no vasto descampado de suas terras, onde, por alguns dias arrancharam-se os insurretos, sentiu os olhos já turvos e cansados encherem-se de lágrimas.



Capitulo 4



A vida no lugar voltava aos poucos a sua normalidade; a história dos revoltosos já era uma página virada. Menos para o Coronel Zezito, homem de poucas palavras que acabou se tornando apático e mudo. Os acontecimentos daqueles dias ainda persistiam em sua memória.

O amigo Louis não lhe dera notícias. O fazendeiro, como os demais do cacau, nada tinha a fazer. Outrora andava pelas roças dando ordens e fiscalizando os serviços dos trabalhadores, e mesmo, ajudando-os em pequenas tarefas.

No entanto, agora não; O coronel permanecia sentado na varanda da casa; horas e horas que se arrastavam no relógio, olhar perdido na estrada, a esperar, sem saber o que! Vez por outra atirava um olhar comprido e cheio de desinteresse para os pés de cacau que cresciam em sua volta.

Nem mesmo as idas ao povoado próximo, onde se encontrava com outros fazendeiros para jogar conversa fora, lhe animava. Fez algumas viagens a Capital, lá onde moravam vários fazendeiros ricos, e que, por falta de ocupação, encontravam-se todos os dias em determinada rua do comércio para desfilarem suas fortunas. Carros novos, anéis magníficos nos dedos, roupas caras, chapéus e sapatos, e até mesmo mulheres vistosas, suas amantes.

Outrora o Coronel andava por ali, e se agradava em rever e conversar com os amigos; falar sobre o cacau, resultado da safra, a quem vendê-lo e se informar a melhor hora para se pegar um bom preço. Até mesmo inteirar-se sobre a cotação da bolsa de Nova York.

Nos últimos tempos, chegava como se fosse um estranho ao meio; saudava alguns velhos amigos, andava de lá para cá, entrava em algum magazine, depois voltava para o hotel, onde lá ficava; no outro dia viajava de volta para casa! A mudança de conduta do Coronel, embora sutil para os demais, não passou despercebida ao faro agudo do Senhor Monti; estava convicto de que algo o corroia por dentro!

Desde aquele episódio dos insurgentes ele mudara, não era o mesmo homem. Estava mais recatado do que lhe era o costume, algo lhe dera uma viravolta a cabeça. Talvez, quem sabe - dizia para si mesmo, tenha chegado a hora de aproveitar-lhe os ares deprimidos colocando em prática o meu projeto para assumir-lhe a fazenda. Papai pape...

Um gritinho de criança veio tirar-lhe os pensamentos; era Valerie que vinha ao seu encontro.

- Oh! Minha princesa venha cá, com pai, anda. Foi logo pegando sua garotinha, enganchando-a ao pescoço e saindo em direção às plantações.

Vamos, venha com seu cavalo, vamos passear pelas roças de cacau do vovô. Eia, vamos. Opa, opa!

O Senhor Monti era um boníssimo pai, e mesmo aquela menininha de tão pouca idade, já percebia isso!

O tempo é o senhor dos nossos destinos; com esta frase o Senhor Monti resumia a principal fase do seu plano, que já estava em curso há muito tempo. Soubera esperar, sim, nada aconteceria antes do seu devido tempo. Imaginava que se tivesse precipitado os acontecimentos, jamais conseguiria obter sucesso no desejo de ficar com a fazenda. O velho Zezito mostrou-se um gigante no momento de defender seus bens e de família. Mas, soubera aguardar, agora seria questão de mais ou menos!

Vinha-lhe notando a conduta; dia após dia, pressentia-lhe a moléstia que o dilacerava a alma. Da fase do pouco falar, estendeu-se para outra mais aguda, que lhe foi à mudez quase completa; dias havia que não falava com ninguém, amuado em seu canto, a vista parada, distante; uma angústia funda o corroia aos poucos.

Ficava à sala deixando as janelas escancaradas para os campos, mas nada lhe interessava lá fora. De tempos em tempos metia a mão no bolso do colete, pegava o relógio de prata Ômega, conferindo-o com o carrilhão alemão Jung Hans, dependurado à parede.

-Estaria esperando alguém? Indagava para si o Senhor Monte, e respondia para si.

-Não, que se saiba ninguém é aguardado.

-Talvez, fazia Monti uma observação.

-A cabeça ingênua desse meu sogro dera voltas com o líder da revolução e suas idéias esquisitas de mudar o mundo, e agora se consumia na esperança de revê-lo; pelo visto faltaria muito pouco para perder o juízo de vez!

Era verão, o sol castigava as plantações desde cedo quando se punha no céu até a hora do ocaso. A cada ano o calor tornava-se mais insuportável.

Imaginava-se, sem que se tivesse certeza, que isso era devido às agressões praticadas pelo homem contra a natureza; os desmatamentos, a poluição ambiental e gases soltos na atmosfera estariam causando o efeito “estufa” que modificava e mexia com o clima do planeta.

Apesar do astro de fogo lá em cima dardejar entre as camadas rarefeitas de ozônio, o cacau, por debaixo das altas árvores que o sombreavam, dormitava indiferente ao calor, enquanto os agregados estavam a colher-lhes os frutos que, naquele ano, prometiam fartura.

Perante essa expectativa, os coronéis do cacau estavam eufóricos com a colheita; os preços batiam na casa dos quinhentos cruzeiros a arroba. Era dinheiro que nada conseguiria acabar, como dizia o Senhor Monti, todavia, destoando-se dos demais proprietários de roças, um deles, o Coronel Zezito, não se dava conta de nada.


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