Excerpt for Guia Prático da Reforma Ortográfica by Walace Freitas, available in its entirety at Smashwords


Walace Cestari

Guia prático da Reforma Ortográfica

© Walace Cestari de Freitas, 2009

É permitida a reprodução parcial ou total desta obra, desde que citada a fonte e que não objetive fins lucrativos e/ou comerciais.



Diagramação: Walace Cestari

Produção: Walace Cestari

Capa:

Foto: www.liquidifique.com.br

Arte: Walace Cestari

Quer entrar em contato com o autor?

www.professorwalace.com.br

Ou visite seu Consultório Gramatical

consultorio.professorwalace.com.br



À minha esposa, companheira paciente

e ao meu filho, inspiração onipresente.



Plano da obra

* Prefácio

* Apresentação

* Algumas palavras iniciais

* O Acordo Ortográfico

* Alfabeto

* H, homofonia e sequências consonantais

* Vogais átonas

* Vogais nasais

* Ditongos

* Acentuação gráfica

* Uso do hífen

* Apóstrofo

* Minúsculas e maiúsculas

* Divisão silábica

* Assinaturas e firmas

* Texto original do Acordo Ortográfico



Prefácio

29 de setembro de 2008 passou a ter um significado especial na história da língua portuguesa no Brasil: foi assinado o decreto de implantação do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entre nós. A data não poderia ser mais significativa, uma vez que marca o centenário de morte de Machado de Assis, que, por sua vez, foi o fundador da Academia Brasileira De Letras, local onde se deu a cerimônia de assinatura.

A reforma ortográfica, que culminou no referido Acordo, vinha sendo discutida desde 1990 por eminentes filólogos e linguistas dos países que integram a Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), formada por Brasil, Portugal, São Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste.

O Acordo visa unicamente à padronização ortográfica, com o intuito de atingir dois objetivos principais: permitir que textos impressos em língua portuguesa circulem, de maneira irrestrita, nesses países, bem como fortalecer o sentimento de unidade gráfica do idioma.

As primeiras informações surgidas acerca das modificações que a língua portuguesa sofreria deixaram, de modo geral, as pessoas inseguras, basicamente em função do desconhecimento acerca da natureza das mudanças que efetivamente iriam ocorrer. Em programas de rádio e de televisão, por exemplo, eram frequentes debates nos quais os participantes conjecturavam sobre tais mudanças. Indagavam eles sobre a possibilidade de palavras tipicamente lusitanas, tais como “comboio”, “elétrico”, poderem vir a substituir as formas de expressão consagradas em nosso país. Não sabiam, portanto, que o Acordo promoveria, unicamente, alterações ortográficas, cujo caráter é puramente convencional; não alteraria a língua na sua essência, reflexo da alma de cada povo, de cada comunidade linguística.

Desse modo, esclarecimentos sobre o assunto revelam-se necessários, tanto no sentido de tranquilizar quanto no de orientar os usuários que, com maior ou menor frequência, se utilizam do texto escrito como forma de expressão.

Esse é, pois, o propósito de Walace Cestari com a presente obra – Guia Prático da Reforma Ortográfica. Por meio de uma linguagem simples, que nem por isso superficializa a abordagem, o autor, com clareza e objetividade, deixa evidentes suas intenções. A primeira delas, como demonstra o próprio título do livro, busca apresentar, de forma prática, as novas regras ortográficas. A segunda está relacionada ao conteúdo da seção Palavras Iniciais, na qual traz reflexões acerca da língua, seu papel de intermediador social, de marca de identidade cultural, e apresenta considerações acerca da padronização entre os países lusófonos.

Trata-se, assim, de uma obra que atende a diferentes públicos e suas respectivas intenções de consulta. Representa, acima de tudo, a voz do professor de sala de aula, consciente do papel social que desempenha, preocupado em orientar seus alunos/leitores no percurso dos novos caminhos ortográficos, no intuito de garantir-lhes, na expressão escrita, o desempenho adequado à língua padrão brasileira.

Os leitores, sem dúvida, têm em mãos uma obra de referência quanto ao assunto abordado.

Tania Maria Nunes de Lima Camara

Professora Adjunta da cadeira de Língua Portuguesa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro



Apresentação

Este guia não é mais um daqueles livros sobre gramática que tem a missão de aterrorizar a vida dos usuários da língua, muito pelo contrário, buscou-se escrevê-lo em uma linguagem acessível, evitando os termos técnicos desnecessários e os floreios tão ao gosto dos gramáticos.

Minha intenção é fazer com que você, caro leitor, tenha em mãos um livro útil, que lhe sirva de consulta e que possa ajudá-lo em suas ambições linguísticas: tirar uma dúvida, ajustar o texto ao Novo Acordo Ortográfico, ampliar seus conhecimentos, ou qualquer outro que porventura você possa ter.

Assim, espero que você aprove esta obra – sem grandes pretensões no vaidoso mundo acadêmico –, mas que busca um lugar de destaque na estante da maior parte dos usuários da última flor do Lácio.

O autor

Nota à edição digital

Esta versão digital apresenta o mesmo texto da versão impressa. Contudo, algumas modificações foram realizadas, a fim de adequar a diagramação ao modelo e-book. Assim, as tabelas ao final de cada capítulo, que resumiam o conteúdo do mesmo, tiveram de ser suprimidas, sem prejuízo ao conteúdo do mesmo.

Em outros casos, tabelas com informações complementares ou facilitadoras foram transformadas em imagens, buscando sua manutenção na obra. Desta forma, peço a compreensão do leitor para com essas imagens, já que, em determinados aparelhos, seu tamanho pode não ser dos mais indicados a uma leitura confortável.

Que a simplicidade e a facilidade do mundo digital possa compensar estes pequenos percalços e, para quaisquer outras dúvidas, não deixe de contatar-me pelo correio eletrônico ou por seu acesso à minha página - ambos endereços colocados ao início do livro. A você, além dos votos de uma boa leitura, deixo meus sinceros agradecimentos.

Amplexos,

Professor Walace Cestari



Algumas palavras iniciais

É sempre importante lembrar que nós, seres humanos, somos praticamente dependentes da comunicação em tudo aquilo que fazemos. Tem sido assim desde a caverna até as grandes corporações, em que a comunicação é a chave das relações de sucesso.

A linguagem humana é altamente sofisticada e complexa, servindo como forma de representação de nosso mundo e de nossos pensamentos; como uma ferramenta de comunicação; e, até mesmo, como uma atividade social, a qual nos possibilita interagir com outros membros da sociedade na prática dos mais diversos atos.

Basicamente, a língua – que é uma das formas de linguagem, mas não a única – baseia-se em um sistema de sinais convencionados capaz de servir à comunicação dos indivíduos. Contudo, é importante ressaltar que só há língua se houver seres humanos que a falem; desta forma, a língua expressa obrigatoriamente a cultura da comunidade que a utiliza, que a transmite de geração a geração, formando uma estrutura tão forte que pode ser considerada como o principal alicerce de uma sociedade.

Por muitas vezes ouvimos (ou até você mesmo já tenha falado em tom de desânimo) “não sei Português”, “não consigo aprender Português” ou “Português é muito difícil”. Todas essas frases são resultado da confusão entre língua e gramática normativa, esta última usada em nossas escolas por muitas vezes como autêntico método de tortura por parte dos professores. Vamos desfazer esta confusão.

Gramática é, na verdade, um termo usado para definir o conjunto de regras de combinações dos sinais existentes em um sistema de comunicação. Parece complicado, mas não é: quando falamos alguma coisa, usamos diversas palavras que só fazem sentido quando combinadas em certa ordem, ligadas por outras palavras específicas, ou ainda através de entoações ou sinalizações gráficas. Esse conjunto de regras é a gramática.

Nas escolas e cursos, o que aprendemos ainda é mais específico do que isso, a chamada gramática normativa: uma tentativa de fazer a descrição de uma das variantes da língua, aquela que possui maior prestígio por seu uso social – camadas mais letradas da sociedade, literatos, legisladores etc. É assim que surge a “norma culta” e é dela que reclamamos quando dizemos não saber Português.

Afinal, todo falante nativo de uma língua sabe sua gramática. Crianças húngaras falam húngaro perfeitamente; bem como as chinesas, o mandarim. Sim, é isso! O que estou afirmando é que você sabe a gramática do Português e usa-a competentemente no seu cotidiano. Você provavelmente estará pensando: “ora, é claro que falo Português, o problema é falar e escrever corretamente.” Eis aí mais uma visão não tão correta assim.

As línguas apresentam variações dos elementos de seu sistema (vocabulário, pronúncia ou sintaxe) ligadas a fatores geográficos, sociais e culturais – escolaridade, profissão, sexo, idade, região, bairro etc.

Falar bem, portanto, é estar adequado à realidade linguística em que vivemos, buscando sempre maior clareza em nossa comunicação. Contudo, isso não significa que podemos deixar a gramática normativa de lado e partir para uma espécie de “vale-tudo” na língua. Sabemos a força das instituições e que, em determinadas situações, o conhecimento da língua-padrão é fundamental.

Unidade linguística do Português

Qualquer idioma apresenta variações, já que tais modificações são constitutivas das línguas humanas e com o Português não seria diferente. Nossa língua é falada, além do Brasil, em Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor Leste, contando com cerca de 200 milhões de falantes em todo o planeta. É difícil imaginar que, com todo esse alcance, não haverá variações.

O Novo Acordo Ortográfico veio unificar o Português? A resposta é não. Vamos continuar expressando nossas diferenças culturais por meio das diferenças de nossa língua. No entanto, o acordo facilita o intercâmbio entre os povos lusófonos, aproxima- -os culturalmente e abre portas para relações econômicas mais estreitas e fortes entre os países.

Para que serve o Novo Acordo Ortográfico?

Uma língua é fundamentalmente oral, isto é, falamos nosso idioma com naturalidade, aprendemos a pronunciar suas sílabas de maneira automática ainda quando crianças. Já a escrita depende de treinamento externo: escola, estudo, treinamento, leitura etc. A escrita é uma invenção humana que busca reproduzir graficamente a língua falada, mas essa representação não se dá com uniformidade – considere que nem mesmo a fala é uniforme – gerando lacunas entre a maneira como falamos e como escrevemos.

Enquanto a fala é ágil e modifica-se rapidamente ao longo do tempo, a escrita é conservadora e permanece estagnada até que se compreenda que é hora de mudanças. Cada geração usa a língua de forma diferente, acrescenta palavras, inova as construções e gera novos paradigmas. Ao mesmo tempo, a escrita permanece ancorada e dissociada de tais mudanças, criando, por vezes, abismos que dificultam o próprio aprendizado do idioma.

O Novo Acordo Ortográfico propõe mudanças apenas na escrita da língua, de maneira a torná-la geral para todos os países lusófonos, facilitando o entendimento de textos escritos.

Não se trata de modificação nas regras gramaticais, mas apenas no sistema ortográfico de representação da língua. Assim, as alterações restringem-se principalmente à escrita das palavras, ao uso de sinais como o hífen e às regras de acentuação gráfica.

Acordos ortográficos são novidade?

Esta não é a primeira vez que nossa ortografia sofre modificações. Em outros tempos, grafias como pharmácia, sciencias, chimica, sòzinho, êle, govêrno eram oficiais; hoje escrevemos farmácia, ciências, química, sozinho, ele, governo sem imaginar que tais palavras já apresentaram outra forma no passado.

Foram inúmeras as padronizações que os governos impuseram à língua, seja em Portugal ou no Brasil, todas restritas à escrita local, buscando uniformidade interna no país de modo a facilitar o ensino, a sistematização e a própria propagação dos instrumentos legais e governamentais à população.

Entretanto, só em 1931 – por iniciativa da Academia Brasileira de Letras –, houve a aprovação de um acordo ortográfico entre Brasil e Portugal. Tal acordo, contudo, não conseguiu sucesso na tarefa da unificação dos sistemas ortográficos e culminou em uma nova convenção ortográfica no ano de 1943.

O resultado prático desses dois encontros foi praticamente nulo, levando à realização da Convenção Ortográfica Luso-Brasileira, datada de 1945. O resultado desta convenção foi adotado em Portugal, mas não no Brasil.

A partir daí, a única mudança significativa foi a promulgação, em 1971 no Brasil e 1973 em Portugal, de leis que reduziram as divergências ortográficas, sem, no entanto, extingui-las.

Houve ainda uma tentativa de elaboração de um projeto de acordo em 1975, que, por razões políticas, acabou por ser rejeitado.

O ano de 1986 marca uma importante mudança no cenário da unificação ortográfica – o encontro do Rio de Janeiro. Foi a primeira vez que, além de Portugal e Brasil, representantes dos países lusófonos da África participaram da elaboração do documento. Mais uma vez o acordo foi inviabilizado, sobretudo, pela resistência encontrada em Portugal.

E o que nos leva a crer que este Novo Acordo Ortográfico será definitivo? É claro que a resposta dessa pergunta exige uma boa dose de especulação, mas percebem-se mudanças estruturais na forma da discussão e criação do atual projeto.

As tentativas anteriores buscavam uma unificação na “marra” com a supressão total de acentos e de convenções da escrita, privilegiando ora o sistema português, ora o brasileiro. O Novo Acordo Ortográfico busca critérios que respeitem a pronúncia das regiões e adota a duplicidade gráfica em muitos casos, por exemplo. Desta maneira, é esperada a unificação em pelo menos 98% das palavras do idioma.

Ainda assim, há grande polêmica acerca do Novo Acordo Ortográfico e a maior prova disso é o fato de um documento assinado em 1990, só entrar em vigor em 2013.

A inexistência de uma ortografia unificada na língua portuguesa é um grande prejuízo para todos nós, seja no âmbito linguístico, pedagógico, político ou comercial. A unificação significa um passo na direção de ampliar as relações entre os países lusófonos e de valorizar a língua na qual se expressaram tantos gênios literários e musicais e que é a nossa mais importante ferramenta de comunicação social.



O Acordo Ortográfico

O acordo ortográfico organiza-se em 21 temas, chamados bases, abrangendo os seguintes assuntos:

Base I – Alfabeto e nomes próprios estrangeiros

Base II – Utilização da letra “h”

Base III – Homofonia de consoantes

Base IV – Sequências consonânticas

Base V – Vogais átonas

Base VI – Vogais nasais

Base VII – Ditongos

Bases VIII a XIV – Acentuação gráfica

Bases XV a XVII – Hífen

Base XVIII – Apóstrofo

Base XIX – Minúsculas e maiúsculas

Base XX – Divisão silábica

Base XXI – Assinaturas e firmas

Este trabalho tem por objetivo tratar das alterações ortográficas que tenham impacto no uso do Português Brasileiro e, tendo em vista tal finalidade, as modificações nas variantes europeia, africana e asiática não serão tratadas.

São muitos os casos de ajustes em palavras que mantêm o padrão já utilizado no Brasil, assim, tratar de tais temas seria enfadonho para o leitor deste guia.

Contudo, para aqueles que apresentarem a curiosidade de conhecer mais amplamente o Novo Acordo Ortográfico, seu texto está publicado na íntegra ao final do livro.

Base I – Alfabeto e nomes próprios estrangeiros

Inclusão das letras k, w, y. Com isso, nosso alfabeto passa a contar com 26 letras.

Essas letras serão empregadas:

Em nomes próprios de pessoas (antropônimos) – Kant, kantismo; Darwin, darwinismo; Byron, byroniano;

Em nomes próprios de lugar (topônimos) – Kuwait, kuwaitiano; Malawi, malawiano;

Em siglas, símbolos e palavras adotadas como unidades de medida de uso internacional. – K (potássio); Kg (quilograma); W (watt);

*Os nomes próprios em hebraico, geralmente encontrados na Bíblia, podem manter as formas finais ch, ph e th ou simplificá-las. Há ainda a possibilidade de eliminá-las quando mudas ou adaptá-las à forma portuguesa – Baruch, Baruc; Loth, Lot; Joseph, José; Nazareth, Nazaré; Judith, Judite.

Ainda em relação a nomes bíblicos, pode-se optar por manter ou não as consoantes finais b, c, d, g e t; não importando se são pronunciadas ou não. – David, David; Jacob, Jacó; a mesma regra vale para Madrid, Madri.

Recomenda-se o aportuguesamento dos nomes de lugar estrangeiros ­­­– Milão em lugar de Milano; Munique em lugar de München; Turim em lugar de Torino, Zurique em lugar de Zürich.

Bases II, III, IV

Esses capítulos do Novo Acordo Ortográfico não alteram o sistema vigente no Brasil.

Base II – O h inicial e final

A letra h continua sendo empregada no início das palavras devido à origem dos vocábulos ou por convenção. Os casos consagrados pelo uso (como erva em vez de herva) foram mantidos, bem como a supressão em casos aglutinação do segundo elemento ao prefixo (como em reabilitar = re + habilitar)

Quando o segundo elemento de palavras compostas ou derivadas ligar-se por meio de hífen ao elemento anterior, será mantido o h (como em anti-higiênico e pré-história). Também se manteve o uso do h ao final das interjeições (como em ah! oh!).

Base III – Homofonia de grafemas consonânticos

Chama-se homofonia a pronúncia igual de certos elementos. No caso, o Acordo faz menção às letras que representam consoantes e que podem ser pronunciadas de maneira idêntica. É o que ocorre em alguns grupos como:

CH/ Xchave, flecha, bruxa, xadrez;

G/Jalgema, girafa, jiboia, lojista;

S, SS, C, Ç, X ganso, seda, pêssego, cetim, percevejo, açúcar, auxílio, máximo, sintaxe;

S (no final da sílaba), X, Zesgotar, esplanada, extensão, extraordinário, infelizmente, velozmente;

S(no final da palavra), X, Z ­­após, através, cálix, arroz, dez;

S, X, Z (no meio da palavra) – Brasil, empresa, exemplo, inexato, beleza, deslize.

O emprego de tais grafemas constitui, sem dúvida, um problema recorrente aos usuários da língua. Contudo, a grafia de tais palavras guia-se pela história das palavras, por suas origens e pelas mudanças ao longo do tempo, razão pela qual o Novo Acordo Ortográfico não propõe alterações em seu uso.

Base IV – Sequências consonânticas

Este tópico do acordo trata da sequência de consoantes interiores, isto é, encontros que ocorrem no meio dos vocábulos. Nesses casos, a recomendação ortográfica segue a pronúncia culta das regiões, instaurando-se a possibilidade de dupla grafia nos vocábulos em que não houver uniformidade de pronúncia. Assim, há dois casos:

Palavras pronunciadas de forma idêntica nos vários países manterão grafia também idêntica – compacto, convicto, apto, erupção, rapto, ação, direção, exato, adoção, Egito.

Palavras que não apresentam uniformidade de pronúncia apresentam dupla possibilidade de grafia – facto/fato, secção/seção, amígdala/amídala, aritmética/arimética.



Base V – Vogais átonas

Este capítulo trata fundamentalmente do emprego das letras e e i quando átonas, isto é, pronunciadas de maneira fraca, fora da sílaba forte (tônica) da palavra.

O emprego destas letras regula-se principalmente pela etimologia, a ciência que estuda a origem das palavras e suas modificações ao longo da história. Desta maneira, as variações no uso dessas letras buscam, mais do que retratar a pronúncia, manter as marcas históricas das palavras.

Ainda assim, algumas modificações e inovações são propostas pelo Novo Acordo Ortográfico:

Os sufixos -iano e -iense passam a manter a letra i nos adjetivos e substantivos derivados, ainda que as palavras originais sejam escritas com a letra eitaliano, açoriano (de Açores), acriano (de Acre), sofocliano (de Sófocles), torriense (de Torres).

Substantivos que apresentam variações por ampliação de outros substantivos passam à uniformidade de escrita com as terminações -ia, -iohástia (de haste), véstia (de veste).

Verbos terminados em -iar originários de substantivos admitem variantes na conjugação – negocio ou negoceio (de negociar), premio ou premeio (de premiar).

Apesar de poucas alterações trazidas neste tópico, tais modificações ou acréscimos apresentam ocorrência razoável na língua, tornando-as merecedoras de maior atenção.



Base VI - Vogais nasais

Não houve alteração quanto ao uso das vogais nasais na ortografia. Lembre-se somente de que as vogais nasais podem ser representadas por grafemas marcados com til (afã, órfã) ou pelas letras -m ou -n quando o caso (clarim, tom, flautins, semitons).

Base VII - Ditongos

Ditongos são encontros entre uma vogal e uma semivogal (ou vice-versa) dentro de uma sílaba. Classificam-se como orais ou nasais (dependendo do papel das cavidades bucal e nasal), como tônicos (fortes) ou átonos (fracos) e ainda como crescentes (quando a semivogal antecede a vogal) ou decrescentes (quando é a vogal que antecede a semivogal).

Normalmente a semivogal é representada pelas letras i ou u (ai, ei, éi, oi, ói, ui; au, eu, éu, iu, ou; ia, ie, io; ua, ue, uo), admitindo-se ditongos que sejam grafados ae (com pronúncia ai) e ao (com pronúncia au).

É possível representar ditongos nasais por vogal e til (ãe, ãi, ao, õe) e também por uma vogal seguida da consoante nasal m (am, em). Neste último caso, há variações gráficas do m em n quando diante de consoante diferente de p ou b.

Contudo, não houve, neste tópico, qualquer alteração quanto à ortografia das palavras que apresentam tais encontros, ficando a cargo da acentuação − tópico que veremos a seguir − as modificações de certos ditongos.

Bases VIII a XIV - Acentuação gráfica

O Novo Acordo Ortográfico divide o assunto da acentuação em diversas bases, tratado aqui em um único capítulo, buscando maior clareza didática.

Após cada uma das bases há um quadro com as mudanças propostas e, ao fim da apresentação das modificações em cada segmento, haverá um resumo das regras de acentuação vigentes, com todas as alterações e manutenções.

Base VIII - Acentuação gráfica das palavras oxítonas

Só houve uma mudança na regra de acentuação dos oxítonos, que passa a aceitar a dupla grafia de determinadas palavras, o que, em termos práticos, não configura real alteração no uso brasileiro.

Admite-se, por diferença de pronúncia, a grafia de certos oxítonos com acento circunflexo ou agudo − bebê/bebé, canapê/canapé, matinê/matiné.

Base IX - Acentuação gráfica das palavras paroxítonas

As palavras paroxítonas constituem o maior conjunto vocabular na língua portuguesa, apresentando, assim, o maior número de casos de modificação das regras de acentuação.

Entretanto, vale ressaltar que as palavras paroxítonas em sua maioria não são acentuadas graficamente. O acordo prevê as seguintes modificações:

Devido à oscilação de timbre na pronúncia de certos vocábulos, alguns vocábulos podem apresentar igual oscilação no uso de acento agudo ou circunflexo − sémen/sêmen, fémur/fêmur, ónix/ônix, pónei/pônei, ténis/tênis, Vénus/Vênus.

Os ditongos ei e oi quando em sílaba tônica de palavras paroxítonas não são mais acentuados − assembleia, estreia, ideia, alcaloide, heroico, jiboia.

Observação: Quando a palavra estiver enquadrada em outra regra de acentuação, mantém-se a acentuação do ditongo − Méier, destróier.

As formas da primeira pessoa do plural (nós) do pretérito perfeito do indicativo aceitam grafia dupla, podendo ser acentuadas de forma a distingui-las das correspondentes do presente do indicativo − amamos (presente)/amámos (pretérito); louvamos (presente)/louvámos (pretérito).

Emprega-se facultativamente a forma dêmos (primeira pessoa do plural do presente do subjuntivo) para diferenciá-la da forma demos (pretérito perfeito do indicativo); da mesma maneira, emprega-se facultativamente fôrma (substantivo) para distingui-lo de forma (substantivo ou verbo na terceira pessoa do singular do presente do indicativo).

As vogais dobradas ee e oo deixam de ser acentuadas − creem, leem, veem, abençoo, enjoo, voo.

O acento diferencial deixa de ser utilizado nas seguintes palavras homógrafas (que possuem a mesma grafia) − para (verbo parar/preposição), pela (verbo pelar/preposição combinada a artigo), pelo (verbo pelar/substantivo/ preposição combinada a artigo), polo (substantivo/ combinação arcaica de preposição com artigo)



Base X - Acentuação das vogais tônicas grafadas i e u das oxítonas e paroxítonas

Usa-se acento gráfico nas letras i e u quando representam a segunda vogal tônica de um hiato (sequência de vogais sem que haja consoante entre elas), se precedidas de vogal, sozinhas na sílaba, formando sílaba com a letra s ou quando não nasalizadas.

Esta regra justifica-se para que não haja possibilidade de leitura de um hiato − país (pátria), por exemplo − como ditongo − pais (genitores), por exemplo.

Além desse caso, i e u podem aparecer em formas verbais acentuadas. Especialmente o u que, em alguns casos leva acento para marcar sua pronúncia, evitando o dígrafo.

O Novo Acordo Ortográfico adicionou à regra do hiato mais uma condição em que não se usa o acento e modificou a acentuação de alguns verbos:

Quando, em paroxítonas, as vogais tônicas i e u estiverem precedidas de ditongo, não recebem acento gráfico − baiuca, boiuno, cheiinho (de cheio), saiinha (de saia).

Observação: fica mantido o acento agudo nas palavras oxítonas − Piauí, Tuiuiú.

O uso da expressão “ditongo” pelo Acordo Ortográfico é impreciso nesse caso, pois refere-se a ditongos decrescentes (ai, ei, oi, ui, au, eu, oi, iu, oi), visando separar “falsos hiatos”, formados pela sequência de vogal + semivogal + vogal.

Assim, você deve manter o acento em hiatos precedidos por ditongo crescente, pois marcam a sequência de duas vogais verdadeiras, como Guaíra, guaíba e jatuaúba.

Os verbos arguir e redarguir perdem o acento gráfico no u nas formas rizotônicas (formas cujo acento encontra-se no radical da palavra) − arguo, arguis, argui, arguem (essas formas lêem-se com tonicidade no -u).

Verbos terminados em -uar e outros em -uir que tenham u pronunciado (exceto os da regra anterior) apresentam duas possibilidades prosódicas (pronúncia quanto à posição da sílaba tônica):

Com u tônico e não acentuado − averiguar (averiguo, averiguas, averiguem), enxaguar (enxaguo, enxaguas, enxaguem) delinquir (delinquo, delinquis).

Observação: Na tradição brasileira, o verbo delinquir é defectivo, não apresentando a primeira pessoa do singular no presente do indicativo e suas formas derivadas no presente do subjuntivo e no imperativo.

Com a ou i do radical acentuados graficamente − averíguo, averíguas, averígua, averíguem; enxáguo, enxáguas, enxáguem; delínquo, delínques, delínquam.

Base XI - Acentuação das palavras proparoxítonas

As palavras proparoxítonas constituem a menor parte do léxico português. Não houve alteração significativa nesta regra, mantendo a acentuação de todas elas. A mudança proposta é a aceitação de dupla grafia, respeitando a pronúncia europeia, como exposto abaixo:

As proparoxítonas cujas vogais tônicas e ou o forem seguidas por m ou n admitem, conforme a pronúncia acento agudo ou circunflexo − académico/acadêmico, anatómico/anatômico, cómodo/cômodo, Amazónia/Amazônia, género/gênero.

Base XII − Emprego do acento grave

O acento grave marca a contração da preposição a com o artigo feminino a e com os pronomes demonstrativos a, aquele, aqueles, aquela, aquelas, aquilo. Este caso, famoso no estudo da língua portuguesa, é estudado, em geral, sob o nome de crase, apesar de que seu conceito refira-se a quaisquer fusões entre vogais iguais.

A boa notícia (má, talvez, para alguns) é que não há modificações no emprego do acento grave que indica a crase da preposição com artigo ou pronome demonstrativo.

Base XIII − Supressão dos acentos em palavras derivadas

O assunto de que trata este tópico já é utilizado no Brasil, não havendo, portanto, alteração no padrão de escrita. Diz respeito a derivações como hábil – habilmente, em que a palavra derivada perde o acento por modificação da sílaba tônica.

Base XIV – Trema

Esta é a regra talvez menos controversa do acordo. A morte do trema já eram favas contadas. Muitos não usavam o trema fazia tempos e parece que a ideia de sumir com ele trouxe alegria geral à nação.

Suprime-se inteiramente o trema em palavras portuguesas ou aportuguesadas − aguentar, linguiça, frequente, tranquilo.

Observação: Conserva-se o trema em palavras derivadas de nomes próprios estrangeiros − mülleriano, de Müller.

Regras de acentuação atualizadas

O sistema de acentuação gráfica atualizado pelo Novo Acordo Ortográfico constitui-se das seguintes regras:

Regras “naturais”

São aquelas que dizem respeito à posição da sílaba tônica das palavras, as quais marcamos graficamente quando diferentes da pronúncia usual de sua terminação.

Oxítonos terminados em a(s), e(s), o(s) e em (ens) cajá, café, jiló, armazém, parabéns.


Purchase this book or download sample versions for your ebook reader.
(Pages 1-20 show above.)