Velas de Portugal
Luiz de Miranda
Para Maria Aparecida Ribeiro,
à memória de José Augusto Seabra
Velas de Portugal
By Luiz de Miranda
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ÍNDICE
PRIMEIRO CANTO
Que eu canto o peito ilustre lusitano,
A quem Netuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.
Camões – Os Lusíadas – Canto I-3
I
que ensina
minha mão
chegar ao final
deste livro de amor,
paixão e louvor
de um homem solitário
do Sul do Brasil
que leva consigo
além das palavras
seu cão e seu cavalo,
pois é com Deus que falo.
Oro o ofício que fura a noite
e funda um pátio de estrelas
nos fundos de minha casa.
Aí está o passado,
amigo dos livros
e da sabedoria.
Oro o ouro
das lavouras
do eco da palavra
e seu tesouro
e tudo muda e resplandece
a noite amanhece,
coberta de amores
e de um ramalhete de orquídeas
que deixo pousado
em tuas brancas mãos,
amigo do vinho
e da liberdade.
Perto de ti eu adivinho
o nome e sua eternidade,
por vozes que não conheço,
falarei da morte
e seu martelar contínuo
sobre amigos,
irmãos,
amadas.
À madrugada alta
ela ceifa nossos olhos.
O turvor nos fecha os poros,
por isso choramos,
lágrimas que vão à terra,
onde tudo termina
e a nada ilumina
no sentimento gris,
mas renascemos no verso
a extrema-unção final
e isto são Velas de Portugal.
II
daquilo que me mata,
a hora não desata
e vamos no tempo
por alqueires de luz azul.
O Sul é meu país,
onde domo o potro vidente
que é a lente dos meus olhos.
Meu amigo e companheiro,
meu canto não tem fronteira,
mesmo no desterro da pampa,
onde um homem se levanta
e escreve novamente
seu caminho,
no andar lento
do seu cão e seu cavalo
tendo por sina o vento
que dobra as esquinas do mundo,
o mapa de nossa vida
por isso chamamos bem alto,
e somos um sobressalto
que não conhece paradeiro.
III
toda ela repartida
dos portos de Lisboa,
assim não canto à-toa.
O semblante do que me nutre
no véu da chuva,
na neblina das horas,
no que vira a eternidade
minhas pobres mãos.
Metade é solidão,
outra metade é saudade
que se retesa
em rios de rima
no pavilhão que nos guarda,
avante armas de mil tiros,
ou sóis do rio Tejo
são milhares de vozes
que virão
um imenso vitral.
IV
como terras de alentejo.
Construo ponte e farejo
um verde horizonte.
Toda coragem que tenho
é pampa por valentia
que alumia a jornada,
povoada de mares à vista
e chegada fora de hora,
sem assinatura
ou testemunho,
é levante prematuro
de mil cavalos
que vão dar no mar,
tendo por fim
o solitário cio
do destino
que trago
desde menino
em meus alforjes de luta
e a força que alumia
a palavra santa de cada dia.
V
sumiu na tarde gris,
onde até os fantasmas
agonizam e morrem.
Trôpegos, os adeuses
escrevem o que fiz.
Tudo é ontem,
e o amanhã não vem,
apenas na aba
do meu chapéu
é uma perola de espanto,
onde canto o que não sabia.
A melancolia me habita
o mundo é pequeno,
mas palpita
um breve aceno
uma brisa leve
que não me leva
e me deixa cego
nesta hora tardia
onde há noite
e não há dia
e a vida é pura ventania.
VI
não aponta o fuzil.
Que sobra em abril
é o aniversário
e o distante rosário
das igrejas de Portugal,
que em plenilúnio
acende em mim
uma vela amarelada,
restos da minha amada,
que partiu há anos
por mares não sabidos.
Me resta o amigo sombrio
sobre este teto de avareza
que se retesa
sobre meus parcos ouvidos.
Sou louco sozinho,
acompanhado sou quieto,
mas sou repleto de esperanças
saúdo a estrela boreal.
VII
que não vejo
por cortinas azuis
sobre meu peito cansado.
É morrer de desejo,
de sede frente ao mar,
onde volto a cantar
as naus do espanto
carrego o espírito da luz e da morte,
de quem singra para viver.
Noturno e lindo
e vê-lo se abrindo
em brilhos eternos.
Ó mar que não termina,
que fulmina a beleza
que adeja minha sombra,
parado dentro de casa,
onde escrevo o poema
em louvor e glória
num denso jogral
ao semelhante de Portugal.
VIII
em outras tardes longas
e em ritmo de milonga
afundam no mar.
De minha casa
avisto um lugar distante
nas lâminas do silêncio.
Vejo no rio da minha infância
o saldo, o solstício
do teu amor.
Fumo um cigarro
e o tempo não passa...
A miséria do meu semelhante
é um cortejo rumo
ao fim do mundo
aonde é quente,
longe da invernia.
Aqui
por milhares de dias
será frio
sobre o alvo
feito de agonia.
E é muito tarde
para voltar
aos começos, neste ramal de estradas.
IX
Esfumou-se Eugênio de Andrade,
tão feliz e bravo,
tão límpido e azul
em seu verso
de vasta ternura
que passeiam as ruas de Lisboa,
tão boas e ditosas,
são glossários de auroras
e sobre minhas mãos
refletem a eternidade
do que disseste
ou pensaste
e eu nunca vi.
Por aqui te canto com amor
como assististe bem a palavra
na sua lavra já antiga.
Ficam as cantigas
e tuas mãos de espanto,
todo canto que guardaste
quieto e bem o cantaste.
Poeta da flor do campo
tudo de ti vira canto
e sonha até por mim
o último cristal da aurora.
X
branca como
a febre terçã
ou louça
sem nome
onde comem
o homem pobre
neste céu
que nos cobre
de santo vento
vindo de longe
falando saudade.
A cidade está sitiada
pelo engenho mudo
que a tristeza inventa
quando rebenta
em lágrimas
meu amor,
que é por ti
que se perdeu de casa
e vaga esta rua cega
sem lembrança ou passado.
Estou ao teu lado
meu irmão sem sorte,
aviva comigo
estas frases desoladas
entre manhãs perdidas
vertemos tintas
sobre a folha pálida
do último verso.
SEGUNDO CANTO
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando:
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
Camões – Os Lusíadas – Canto I-2
I
quando o sol se ponha
e as estrelas levantem
seu maior manto.
É puro canto
o que tenho para dizer,
morrer vale a pena
doer por dentro é pior.
Sangrar na vileza do dia
é nau sem rumo.
Assumo o que faço
e traço novo semblante.
quero aquilo que cante,
a árvore solitária de Coimbra,
onde há sombra que me pertence.
Renovo as pétalas da flor
esquecida
para que vida
me reconheça,
e aconteça o raio matinal
que acorda quando levanto.
II
a dor não perdoa,
late na veia da mão,
e late à-toa
na veia de dentro
do coração
das ruas de Lisboa.
É uma canção esquecida
no resto do que sobrou da vida.
Ninguém resgata os meus ais,
aquilo que mói na alma,
afogado num poço profundo,
loucura que me dá o mundo,
sem pergunta ou resposta.
Onde foi posta
a alegria da minha juventude?
Várzea de rio
que vigila noite adentro
sobra da angústia,
aquilo que era vento
e ruiu na aurora,
o que não marca
mais as horas.
Ácida,
a dor não acorda mais nada,
nesta altura limite da madrugada
no olho da réstia de luz final.
III
em todos os momentos
da carne,
ela tenta resistir
e é aí que cai
sobre a cama
se esparrama
em ais de amor.
Mas lentos móveis da ausência
ainda moram nesta casa
longe do mar,
numa rua modesta,
quase sem nome.
A fome do meu país
o vinho não rebenta,
alenta à mesa noturna,
onde poucos bebem
o amor,
dom da vida,
estrada só de ida
que não tem igual.
IV
lavram a lavoura da palavra
e armam o silêncio
com denso brilho,
os ladrilhos do tempo
me dão bom sustento
com seus vitrais incessantes
que vão sempre avante,
levando meus cavalos de guerra
a paragens além-mar,
e vou longe a qualquer lugar
onde ouço o espanto
de um novo cantar.
E a velha milonga
da velha Uruguaiana,
que fala de Maria, Helena e Ana
e palmilham o amor que tenho
é o engenho da paixão
que iluminou o destino
desde que eu era pequeno.
Assim suporto o destrato
que às vezes me dão
os que não sabem ler.
Viver é minha promessa
não cessa o meu canto,
as pérolas da esperança
cantam mais alto e avançam
numa forma original.
Tabajara Ruas,
dilacerado escritor
que me acompanha
desde a imortal Uruguaiana.
V
aquilo que não sei,
já atravessei o mundo
e continuo não sabendo.
A cada esquina,
ele muda de nome,
é um sobressalto
desaparece
na fina brisa
que cobre a noite.
Mas mesmo assim,
ao fim de tudo,
o amor chega
com seus vendavais
de paixão e morte.
Amor é sempre outra sorte,
é vento de estio,
é olho do furacão
é rio de nossa vida
que na amplidão
muda o rumo
do velho coração.
O amor salta
fora dos trilhos,
tem o brilho
da última estrela.
VI
essa é a meta eterna
da vida do poeta.
Outros olhos
me verão passar
e me amarão
como não me amaste.
A vida serve
e é servida.
Adivinho a estrada
onde uma nova amada
me espera
no portal da aurora.
Os relógios estão quebrados,
e fugiram todas as horas.
Me resta este espelho
de eternidade
e os vitrais
rotos
da saudade
a luta sempre é luta,
mesmo em meio ao temporal.
VII
ainda mudam o silêncio
da tarde
e tardam
as manhãs
e as noites.
O frio se instala nos ossos
mas já ouço os olhos do mar
e me destino para lá,
como um homem pobre
que precisa respirar,
o horizonte largo da esperança
a marina põe no meu peito
um jeito novo de andar,
uma voz
nova
para cantar
que sai pelo mundo
para nunca mais voltar.
Canto a voz de todos
os que não têm voz,
mas fazem caminhos
num tempo novo
de não andar mais sozinho
e marcham a estrada de cal.
VIII
para que a tristeza vá embora,
antes
que surja
límpida
aurora.
Que o vinho tinto desce liso,
como a alvura longínqua do mar
e eu possa chorar esta dor incontida,
que quanto
mais ando
mais me dá vida.
Que venha a polenta e o resto da alma
que ainda respira nas ruas de Uruguaiana,
diz para o Batista que a conta é da casa.
Hoje,
neste dia turvo
e de poucos haveres,
bebo
lentamente
as asperezas
do destino,
sou um menino
que se perdeu no mundo,
mas volto
em um segundo
se me chama
a pampa.
Meu cão e meu cavalo
aparecem num relâmpago,
e tudo é regresso eterno
na leve estrada
e já rebrilha
o olhar da minha amada
num verdor longo e natural.
IX
neste setembro
ímpio e avaro.
Fechei o casaco grosso
sobre o corpo pálido do espanto,
pois um novo canto acontecia
quando a geada já se anuncia.
Nada detém a palavra,
bela e mágica,
e minhas mãos magras pobres
que sustentam uma esperança
esguia
pendurada na janela do quarto.
De há-anos o tempo me maltrata,
os anos já antigos,
um corpo que anda
o sombrio da vida,
carregado de despedidas.
Ah, meu santo Deus,
meus rios de fogo,
de tormento antiga
alaga a longa e fria
camada a alma,
onde a calma
não vibra
desata-se em lágrimas.
Nunca vi dias mais tristes.
Outros não há
no pó
da minhas velhas sandálias.
Sou só e amigo
da aragem a madrugada
da margem do rio Uruguai.
Minha amada vem só,
no espanto do poema,
este tema que finaliza
o vórtice da terra
e me diz que espere
à têmpera patinada
do futuro,
que trará a primavera
onde vigem
as flores arrancadas,
uma em tuas mãos,
outras no caminho,
para que passes,
ó mulher dos meus amores,
trazes o grito da paixão
e a serenidade de um amor bonito.
TERCEIRO CANTO
As armas e os barões assinalados
Que, da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana.
Camões – Os Lusíadas – Canto I-1
I
a tristeza
venta
no rosto,
e a alma,
não dorme,
como dormiria nas casas
feitas de sombras
que vigilam,
que dão bons sonhos
e um sono largo
e um amor
que chega
em tua cama
vindo da última estrela.
Tens um resto de adeus
que não é despedida
vai dar no futuro
e avança sobre a cidade
e seus muros
e muda a realidade do mundo.
Em lugar algum tem igual
e isto são Velas de Portugal.
II
sem dinheiro e sem vinho,
longe de Deus e de Portugal.
A noite chega quieta,
como a alma do poeta
do Café Martino,
Fernando Antonio Nogueira Pessoa
passeia pelas ruas de Lisboa,
ninguém lhe publica um livro
na primeira metade do século XX
há poucos amigos
e raros ouvintes.
Morre sozinho
como sozinho viveu,
deixando como herança
metade da Lírica Portuguesa.
Já não fala,
mas o escrito
no silêncio escuro do bar,
destinado ao desterro
que sempre soube cantar.
Lembrança pequena,
lembrança morta.
Mas ainda hoje bebe-se a pagar
quando puder ou talvez não,
um pouco de bebida barata
que desata na alma
que no vazio do copo
ocupa água de rio.
Pessoa é canto
de uma vida inteira.
Aqui me cabe louvar
seu santo nome
como o melhor dos homens
dos mais augustos portugueses,
que a terra lusitana
deu ao mundo.
III
que não me olha
que voa
na lenta brisa
dessa tarde de inverno
ou é pintura morta
no centro da mesa: