Excerpt for Velas de Portugal by Luiz De Miranda, available in its entirety at Smashwords


Velas de Portugal

Luiz de Miranda

Para Maria Aparecida Ribeiro,

à memória de José Augusto Seabra

Velas de Portugal

By Luiz de Miranda

Published by Editorial Emooby at Smashwords

© Copyright 2011 Editorial Emooby




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ÍNDICE

PRIMEIRO CANTO

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

SEGUNDO CANTO

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

TERCEIRO CANTO

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

CANTO QUARTO

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

CANTO QUINTO

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

CANTO SEXTO

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

CANTO SÉTIMO

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

CANTO OITAVO

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

CANTO NONO

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

CANTO DÉCIMO

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

CANTO ONZE

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

CANTO DOZE

I

II

III

IV

V

VI

VII

VIII

IX

X

Epitáfio

Pequena Biografia

PRIMEIRO CANTO

Que eu canto o peito ilustre lusitano,

A quem Netuno e Marte obedeceram.

Cesse tudo o que a musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.

Camões – Os Lusíadas – Canto I-3

I

Oro por Portugal

que ensina

minha mão

chegar ao final

deste livro de amor,

paixão e louvor

de um homem solitário

do Sul do Brasil

que leva consigo

além das palavras

seu cão e seu cavalo,

pois é com Deus que falo.

Oro o ofício que fura a noite

e funda um pátio de estrelas

nos fundos de minha casa.

Aí está o passado,

amigo dos livros

e da sabedoria.

Oro o ouro

das lavouras

do eco da palavra

e seu tesouro

e tudo muda e resplandece

a noite amanhece,

coberta de amores

e de um ramalhete de orquídeas

que deixo pousado

em tuas brancas mãos,

amigo do vinho

e da liberdade.

Perto de ti eu adivinho

o nome e sua eternidade,

por vozes que não conheço,

falarei da morte

e seu martelar contínuo

sobre amigos,

irmãos,

amadas.

À madrugada alta

ela ceifa nossos olhos.

O turvor nos fecha os poros,

por isso choramos,

lágrimas que vão à terra,

onde tudo termina

e a nada ilumina

no sentimento gris,

mas renascemos no verso

a extrema-unção final

e isto são Velas de Portugal.

II

Vou adiante

daquilo que me mata,

a hora não desata

e vamos no tempo

por alqueires de luz azul.

O Sul é meu país,

onde domo o potro vidente

que é a lente dos meus olhos.

Meu amigo e companheiro,

meu canto não tem fronteira,

mesmo no desterro da pampa,

onde um homem se levanta

e escreve novamente

seu caminho,

no andar lento

do seu cão e seu cavalo

tendo por sina o vento

que dobra as esquinas do mundo,

o mapa de nossa vida

por isso chamamos bem alto,

e somos um sobressalto

que não conhece paradeiro.

III

Incêndios da minha vida,

toda ela repartida

dos portos de Lisboa,

assim não canto à-toa.

O semblante do que me nutre

no véu da chuva,

na neblina das horas,

no que vira a eternidade

minhas pobres mãos.

Metade é solidão,

outra metade é saudade

que se retesa

em rios de rima

no pavilhão que nos guarda,

avante armas de mil tiros,

ou sóis do rio Tejo

são milhares de vozes

que virão

um imenso vitral.

IV

Sou homem que vai longe

como terras de alentejo.

Construo ponte e farejo

um verde horizonte.

Toda coragem que tenho

é pampa por valentia

que alumia a jornada,

povoada de mares à vista

e chegada fora de hora,

sem assinatura

ou testemunho,

é levante prematuro

de mil cavalos

que vão dar no mar,

tendo por fim

o solitário cio

do destino

que trago

desde menino

em meus alforjes de luta

e a força que alumia

a palavra santa de cada dia.

V

O que eu tinha

sumiu na tarde gris,

onde até os fantasmas

agonizam e morrem.

Trôpegos, os adeuses

escrevem o que fiz.

Tudo é ontem,

e o amanhã não vem,

apenas na aba

do meu chapéu

é uma perola de espanto,

onde canto o que não sabia.

A melancolia me habita

o mundo é pequeno,

mas palpita

um breve aceno

uma brisa leve

que não me leva

e me deixa cego

nesta hora tardia

onde há noite

e não há dia

e a vida é pura ventania.

VI

A ira inábil

não aponta o fuzil.

Que sobra em abril

é o aniversário

e o distante rosário

das igrejas de Portugal,

que em plenilúnio

acende em mim

uma vela amarelada,

restos da minha amada,

que partiu há anos

por mares não sabidos.

Me resta o amigo sombrio

sobre este teto de avareza

que se retesa

sobre meus parcos ouvidos.

Sou louco sozinho,

acompanhado sou quieto,

mas sou repleto de esperanças

saúdo a estrela boreal.

VII

Andas este mar

que não vejo

por cortinas azuis

sobre meu peito cansado.

É morrer de desejo,

de sede frente ao mar,

onde volto a cantar

as naus do espanto

carrego o espírito da luz e da morte,

de quem singra para viver.

Noturno e lindo

e vê-lo se abrindo

em brilhos eternos.

Ó mar que não termina,

que fulmina a beleza

que adeja minha sombra,

parado dentro de casa,

onde escrevo o poema

em louvor e glória

num denso jogral

ao semelhante de Portugal.

VIII

As tardes caem

em outras tardes longas

e em ritmo de milonga

afundam no mar.

De minha casa

avisto um lugar distante

nas lâminas do silêncio.

Vejo no rio da minha infância

o saldo, o solstício

do teu amor.

Fumo um cigarro

e o tempo não passa...

A miséria do meu semelhante

é um cortejo rumo

ao fim do mundo

aonde é quente,

longe da invernia.

Aqui

por milhares de dias

será frio

sobre o alvo

feito de agonia.

E é muito tarde

para voltar

aos começos, neste ramal de estradas.

IX

Esfumou-se Eugênio de Andrade,

tão feliz e bravo,

tão límpido e azul

em seu verso

de vasta ternura

que passeiam as ruas de Lisboa,

tão boas e ditosas,

são glossários de auroras

e sobre minhas mãos

refletem a eternidade

do que disseste

ou pensaste

e eu nunca vi.

Por aqui te canto com amor

como assististe bem a palavra

na sua lavra já antiga.

Ficam as cantigas

e tuas mãos de espanto,

todo canto que guardaste

quieto e bem o cantaste.

Poeta da flor do campo

tudo de ti vira canto

e sonha até por mim

o último cristal da aurora.

X

Vem a manhã

branca como

a febre terçã

ou louça

sem nome

onde comem

o homem pobre

neste céu

que nos cobre

de santo vento

vindo de longe

falando saudade.

A cidade está sitiada

pelo engenho mudo

que a tristeza inventa

quando rebenta

em lágrimas

meu amor,

que é por ti

que se perdeu de casa

e vaga esta rua cega

sem lembrança ou passado.

Estou ao teu lado

meu irmão sem sorte,

aviva comigo

estas frases desoladas

entre manhãs perdidas

vertemos tintas

sobre a folha pálida

do último verso.

SEGUNDO CANTO

E aqueles que por obras valerosas

Se vão da lei da Morte libertando:

Cantando espalharei por toda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Camões – Os Lusíadas – Canto I-2

I

Sairemos daqui sempre

quando o sol se ponha

e as estrelas levantem

seu maior manto.

É puro canto

o que tenho para dizer,

morrer vale a pena

doer por dentro é pior.

Sangrar na vileza do dia

é nau sem rumo.

Assumo o que faço

e traço novo semblante.

quero aquilo que cante,

a árvore solitária de Coimbra,

onde há sombra que me pertence.

Renovo as pétalas da flor

esquecida

para que vida

me reconheça,

e aconteça o raio matinal

que acorda quando levanto.

II

Ácida,

a dor não perdoa,

late na veia da mão,

e late à-toa

na veia de dentro

do coração

das ruas de Lisboa.

É uma canção esquecida

no resto do que sobrou da vida.

Ninguém resgata os meus ais,

aquilo que mói na alma,

afogado num poço profundo,

loucura que me dá o mundo,

sem pergunta ou resposta.

Onde foi posta

a alegria da minha juventude?

Várzea de rio

que vigila noite adentro

sobra da angústia,

aquilo que era vento

e ruiu na aurora,

o que não marca

mais as horas.

Ácida,

a dor não acorda mais nada,

nesta altura limite da madrugada

no olho da réstia de luz final.

III

O vinho rebenta

em todos os momentos

da carne,

ela tenta resistir

e é aí que cai

sobre a cama

se esparrama

em ais de amor.

Mas lentos móveis da ausência

ainda moram nesta casa

longe do mar,

numa rua modesta,

quase sem nome.

A fome do meu país

o vinho não rebenta,

alenta à mesa noturna,

onde poucos bebem

o amor,

dom da vida,

estrada só de ida

que não tem igual.

IV

As armas que tenho

lavram a lavoura da palavra

e armam o silêncio

com denso brilho,

os ladrilhos do tempo

me dão bom sustento

com seus vitrais incessantes

que vão sempre avante,

levando meus cavalos de guerra

a paragens além-mar,

e vou longe a qualquer lugar

onde ouço o espanto

de um novo cantar.

E a velha milonga

da velha Uruguaiana,

que fala de Maria, Helena e Ana

e palmilham o amor que tenho

é o engenho da paixão

que iluminou o destino

desde que eu era pequeno.

Assim suporto o destrato

que às vezes me dão

os que não sabem ler.

Viver é minha promessa

não cessa o meu canto,

as pérolas da esperança

cantam mais alto e avançam

numa forma original.

Tabajara Ruas,

dilacerado escritor

que me acompanha

desde a imortal Uruguaiana.

V

Amor é mistura

aquilo que não sei,

já atravessei o mundo

e continuo não sabendo.

A cada esquina,

ele muda de nome,

é um sobressalto

desaparece

na fina brisa

que cobre a noite.

Mas mesmo assim,

ao fim de tudo,

o amor chega

com seus vendavais

de paixão e morte.

Amor é sempre outra sorte,

é vento de estio,

é olho do furacão

é rio de nossa vida

que na amplidão

muda o rumo

do velho coração.

O amor salta

fora dos trilhos,

tem o brilho

da última estrela.

VI

A luta sempre é luta,

essa é a meta eterna

da vida do poeta.

Outros olhos

me verão passar

e me amarão

como não me amaste.

A vida serve

e é servida.

Adivinho a estrada

onde uma nova amada

me espera

no portal da aurora.

Os relógios estão quebrados,

e fugiram todas as horas.

Me resta este espelho

de eternidade

e os vitrais

rotos

da saudade

a luta sempre é luta,

mesmo em meio ao temporal.

VII

Minhas mãos mudas

ainda mudam o silêncio

da tarde

e tardam

as manhãs

e as noites.

O frio se instala nos ossos

mas já ouço os olhos do mar

e me destino para lá,

como um homem pobre

que precisa respirar,

o horizonte largo da esperança

a marina põe no meu peito

um jeito novo de andar,

uma voz

nova

para cantar

que sai pelo mundo

para nunca mais voltar.

Canto a voz de todos

os que não têm voz,

mas fazem caminhos

num tempo novo

de não andar mais sozinho

e marcham a estrada de cal.

VIII

Serve esta mesa, Dinarte,

para que a tristeza vá embora,

antes

que surja

límpida

aurora.

Que o vinho tinto desce liso,

como a alvura longínqua do mar

e eu possa chorar esta dor incontida,

que quanto

mais ando

mais me dá vida.

Que venha a polenta e o resto da alma

que ainda respira nas ruas de Uruguaiana,

diz para o Batista que a conta é da casa.

Hoje,

neste dia turvo

e de poucos haveres,

bebo

lentamente

as asperezas

do destino,

sou um menino

que se perdeu no mundo,

mas volto

em um segundo

se me chama

a pampa.

Meu cão e meu cavalo

aparecem num relâmpago,

e tudo é regresso eterno

na leve estrada

e já rebrilha

o olhar da minha amada

num verdor longo e natural.

IX

O dia deu em chuva e frio

neste setembro

ímpio e avaro.

Fechei o casaco grosso

sobre o corpo pálido do espanto,

pois um novo canto acontecia

quando a geada já se anuncia.

Nada detém a palavra,

bela e mágica,

e minhas mãos magras pobres

que sustentam uma esperança

esguia

pendurada na janela do quarto.

De há-anos o tempo me maltrata,

os anos já antigos,

um corpo que anda

o sombrio da vida,

carregado de despedidas.

Ah, meu santo Deus,

meus rios de fogo,

de tormento antiga

alaga a longa e fria

camada a alma,

onde a calma

não vibra

desata-se em lágrimas.

Nunca vi dias mais tristes.

Outros não há

no pó

da minhas velhas sandálias.

Sou só e amigo

da aragem a madrugada

da margem do rio Uruguai.

Minha amada vem só,

no espanto do poema,

este tema que finaliza

o vórtice da terra

e me diz que espere

à têmpera patinada

do futuro,

que trará a primavera

onde vigem

as flores arrancadas,

uma em tuas mãos,

outras no caminho,

para que passes,

ó mulher dos meus amores,

trazes o grito da paixão

e a serenidade de um amor bonito.

TERCEIRO CANTO

As armas e os barões assinalados

Que, da ocidental praia lusitana,

Por mares nunca de antes navegados

Passaram ainda além da Taprobana.

Camões – Os Lusíadas – Canto I-1

I

Aqui

a tristeza

venta

no rosto,

e a alma,

não dorme,

como dormiria nas casas

feitas de sombras

que vigilam,

que dão bons sonhos

e um sono largo

e um amor

que chega

em tua cama

vindo da última estrela.

Tens um resto de adeus

que não é despedida

vai dar no futuro

e avança sobre a cidade

e seus muros

e muda a realidade do mundo.

Em lugar algum tem igual

e isto são Velas de Portugal.

II

Resto-me nesta mesa vazia

sem dinheiro e sem vinho,

longe de Deus e de Portugal.

A noite chega quieta,

como a alma do poeta

do Café Martino,

Fernando Antonio Nogueira Pessoa

passeia pelas ruas de Lisboa,

ninguém lhe publica um livro

na primeira metade do século XX

há poucos amigos

e raros ouvintes.

Morre sozinho

como sozinho viveu,

deixando como herança

metade da Lírica Portuguesa.

Já não fala,

mas o escrito

no silêncio escuro do bar,

destinado ao desterro

que sempre soube cantar.

Lembrança pequena,

lembrança morta.

Mas ainda hoje bebe-se a pagar

quando puder ou talvez não,

um pouco de bebida barata

que desata na alma

que no vazio do copo

ocupa água de rio.

Pessoa é canto

de uma vida inteira.

Aqui me cabe louvar

seu santo nome

como o melhor dos homens

dos mais augustos portugueses,

que a terra lusitana

deu ao mundo.

III

Olho a vida

que não me olha

que voa

na lenta brisa

dessa tarde de inverno

ou é pintura morta

no centro da mesa:


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