LIRA ROMÂNTICA
José Luiz da Luz
©Editorial Emooby
Lira Romântica
By José Luiz da Luz
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Table of Contents
7 - Na rede, lembranças de uma mulher
72 - Coisas que não voltam jamais
Foi com surpresa e alegria que recebi o convite para escrever o prefácio do livro “Lira Romântica” de meu amigo e companheiro de trabalho José Luiz da Luz.
Surpreso por não ser poeta e contista como o autor, mas com regozijo em ver um sonho realizado através da publicação de um trabalho, construído e amadurecido desde a juventude.
Sua personalidade tímida o conduz a refletir muito, pensar maduramente. Estes atributos trouxeram à tona suas impressões sobre os homens e seus sentimentos.
Sensibilidade demonstrada em abordagens sobre diversos temas: amor, vida, morte, solidão, numa abordagem romântica da dimensão espiritual e psicológica do ser humano.
Seus poemas e contos têm influência da segunda geração do Romantismo Brasileiro, com temas atuais mantêm o rigor da métrica e rima como os poetas passados.
É um dos mais assíduos poetas da Câmara Brasileira de Jovens Escritores do Rio de Janeiro, Brasil.
O José Luiz da Luz venceu todos os obstáculos de um trabalho solitário. Com muita coragem e audácia expôs seus sentimentos mais secretos, e através de seus poemas desnuda sua alma, atravessa uma nova fronteira cheia de descobertas, que podem ser as mesmas de outros tantos Josés e Marias de nossas vidas.
Osmar Aggio
Autor do livro “A Colônia Que Veio do Pó”
Desde que vi tímida e seminua a minha alma exalando por entre as pedras e espinheiros deste meu horto, os fluidos da própria essência, estes são os cantos. Cantos de um pobre poeta. Perdoem-me poetas românticos, ademais os acordes doridos continuam sendo iguais, senão um tema de almas sensitivas.
São continuações dos cantos de uma lira que vibra no intrínseco de uma alma, que já soaram, e que soam novamente. Vibrações naturais de uma alma que reage aos sentimentos e emoções, às sendas do subjetivo e do objetivo, da beleza e do mistério.
Nasce a poesia deslumbrada exausta de fitar o céu, ademais atingir o lume das estrelas com asas de ouro, e o poeta voa na terra. Que lembra das vivências da alma, ouve as harmonias da natureza, vê o imaterial, pressente o intocável. Afinal, o poeta é um ser humano que tem alma. Alma que encerra em si toda atividade existencial dos planos, que ama, que sente, que pensa ... No afogo das sendas da ilusão material, a alma é a única coisa que existe.
Pois o amor é desde um impulso interior que impele uma alma à outra alma, até a atração desconhecida que alça a inteligência extasiada às sendas do mistério, no altar da beleza ou da verdade. O amor é o real fundamento imortal dos mundos e de toda criatura criada por Deus.
A poesia então começa pela erupção das palavras manchadas dos fluidos do mais íntimo da alma, brilhando sobre a terra como o arrebol que guarda os últimos raios do sol, mesmo tendo a noite pela frente. Caminha tímida por entre os corações sensitivos, derramando as melodias perfumadas e luzentes. Que vibrem no peito a poesia, o amor e a fé, pois são os mais puros caminhos para a reintegração no absoluto.
Sou o reluzir na água da luz da lua;
O sabor das águas que nascem da fonte;
Os olhos da criança às nuvens insonte;
Sou o furor do sol que no éter flutua.
Sou a música do éter em harmonia;
A ordem dos astros em órbitas reais;
A luz das estrelas em ações vitais;
A força da nuvem cósmica bravia.
Sou o perfume da terra original;
A vida de todos os seres viventes;
O princípio que deu todas as sementes;
O infindo fluido cósmico universal.
Sou o princípio, o meio e o fim dos mundos;
O alfa e o ômega da criação total;
A imortalidade do espiritual;
A rapidez da luz, aos confins profundos.
Sou a inteligência mental dos pensantes;
A relatividade do tempo e espaço;
O frio do gelo, do fogo o mormaço;
As níveas nuvens, os raios penetrantes.
Sou o silêncio da ermida ornada em flor;
O espírito e a matéria estão em mim;
Eu não tive começo, nem terei fim;
Eu Sou Deus! Sou o Criador! Sou amor!
Se eu soubesse lhe agradar:
Seu clamor eu ouviria,
sua dor respiraria,
navegaria em seu mar.
Se eu soubesse lhe agradar:
A minh´alma eu lhe daria,
de meu sol lhe cobriria,
aqueceria o seu ar.
Se eu soubesse lhe agradar:
Seu suor eu tiraria,
seu labor eu quem faria,
teria o seu palmilhar.
Se eu soubesse lhe agradar:
Sua chaga eu tiraria,
meu sangue é que escorreria,
penaria o seu penar.
Se eu soubesse lhe agradar:
Sua cruz eu tomaria,
e de luz lhe cobriria,
morreria em seu lugar.
Se eu soubesse lhe agradar:
Serviria o meu amor,
nas papilas de uma flor,
para poder lhe encantar.
Mas não posso lhe agradar,
suprimindo o seu labor,
pois a lei do Deus de amor,
é aprender, para brilhar.
São tantas as nuvens que escurecem;
Tantos fracassos desenrolam;
Mil ternuras desaparecem;
Vidas esmagadas se assolam.
São tantas as nuvens que enlouquecem.
No meu seio nu condensando.
Cobrindo os sonhos que fenecem.
Num véu perdido, se afogando.
São tantas as nuvens que me espantam.
Nimbos ao léu que roubam luz.
Pois na vida rocas levantam,
ferindo o madeiro da cruz.
São tantas as nuvens desta vida,
que refrega para a alma traz.
Expondo à lama a tez ferida,
selvagem, qual fera tenaz.
Nuvens que têm o amargor do fel.
Manchadas de sangue, aparecem.
No seu manto escondem o céu,
deixado trevas que enlouquecem.
Morte! Tu és a ceifa em mistérios envolta.
Dás asas ao infinito à alma cativa.
Cinges a potestade à terra furtiva.
Aniquilas do peito a chama revolta.
Morte! Tu que pegas a foice dorida,
e corta sem dó, o cordão vital da vida.
Tu abates toda autoridade do mundo.
Levas ao pó rótulos, honras e glórias.
Fazes do carnal em vestes transitórias.
Findas os sonhos em teu seio profundo.
Morte! Teu nome em todo verbo está escrito.
Sobre as faces esculpes teu infinito.
Fazes heróis tremerem no cadafalso.
Ceifas o orgulho, emudeces os bravios.
Teus raios atravessam portais sombrios.
Dás o sabor da agonia em teu encalço.
Morte! Que a alma agarrada à carne se agita.
Fenece os sentidos!... liberta, dormita!
Tens justas leis e guardas o real peso.
Pagas para cada um o seu galardão.
E cobras dos ímpios a justa fração.
Queima o mormaço, do teu archote aceso.
Morte! Provas que a densidade é ilusão,
quando as almas arrebatas deste chão.
É amor!... desde a atração da Terra à lua,
ao impulso do homem à mulher amada.
Desde o hausto de Deus que no éter flutua.
É amor!... dos mundos, a fonte enleada.
Penetrante às sendas do desconhecido,
aos pés da cruz, da utopia ou do real.
O amor, é luz de todo ente concebido,
luzindo no âmago, de modo imortal.
Meu Deus!... criaste assim tua criatura,
fizeste o humano de lodo à tua imagem.
Para amar, entre a liça, à tua feitura,
o rei da criação, de leda roupagem.
Foi o amor que fez os apóstolos sábios,
morrerem à prova da imortalidade.
Sob torturas, não cerraram os lábios!
Sangue fervente do ardor da caridade.
Foi o amor que fez os mártires trementes,
nas prisões dos Césares verterem sangue.
Consolando-se à luz dos anjos clementes,
morriam para a luz, com corpos ao mangue.
Foi o amor que fez a agonia da cruz,
tornar-se um egrégio bálsamo às nações.
Ecoando nos séculos sua luz,
qual hino triunfal para os corações.
Deus é amor!... a melhor definição,
acerca do Pai criador do infinito.
Ser amor, na essência, por revelação.
Nos universos, é o fluido mais bendito.
A vontade regra tudo, exceto o amor.
Porque do Espírito de Deus ele nasce.
No sagrado coração em resplendor,
um fogo ardente, de doação e enlace.
Jóia preciosa envolta em divino véu.
És mais alva do que o brilho do luar.
Alada mais do que os meus sonhos de céu.
Na alma te velo qual pérolas do mar.
Impávida te vejo às sendas do léu.
Num desvario banho-me em teu brilhar.
Exala tua alma o reluzir de um céu.
Tens teu seio, as águas sagradas de um mar.
E como um anjo que o amor é o troféu.
Alçada às asas de ouro vejo a voar.
Maviosa te vejo luzir no meu céu.
Ornada às cores da ardentia do mar.
7 - Na rede, lembranças de uma mulher
No oscilar da rede,
mescla a sua sede.
Tem o seu descanso,
no doce balanço.
No gélido leito,
que reclina o peito.
E pranteia agora,
lembrando da hora.
Tão cândida e nua,
na alva cama sua.
No afã do calor,
mergulhou no amor.
Vaivém a lembrança,
daquela aliança.
Langue de emoção,
em seu coração.
Pérola e tão bela,
da noite, donzela.
Sussurros molhados,
nos lábios plasmados.
Eflúvio sentido,
e um céu atingido.
No seio luzia,
luar que caia.
Mas lembrava ainda,
que a magia linda,
o inverno mirrou.
Seu frio levou,
a flor da paineira,
na noite primeira.
Um suspiro vem,
chora ao vai e vem.
A febre que orvalha,
embuça a mortalha.
Ferida invisível,
de uma alma sensível.
Estremece e cai...
de sua alma, um ai!
Pois do céu, um astro.
Um cometa em rastro,
qual raio passou,
e logo findou.
Afoga o seu peito,
no afogo do leito.
Só réstia deixou,
o astro que passou.
Só um archote vil,
e uma tez febril.
Qual astro ao luar,
trouxe o prantear?
Que no céu luzente,
sumiu de repente...
Numa senda incerta,
de nuvem coberta...
Pálpebras tolhidas,
de aragens perdidas.
Ferve o coração,
da dor em serão.
Como águas ferventes,
ao fogo, torrentes...
Desejo, se ímpios plasmarem tua cruz.
Com exato fardo ao teu suor verter.
Que esmeres bem tua alma ao oferecer.
A certeza do perdão, e tua luz.
Que haja feito na pira do coração.
O fulgor justo de um verdadeiro irmão.
Desejo que tenhas o discernimento.
Que pondera quem desliza, e quem odeia.
Para que a sabedoria que permeia.
Dê ciência, e que exales entendimento.
Que não morra de tua alma esta ternura,
que possa afagar o afã de outra alma impura.
Desejo, se as tuas lágrimas furtarem,
dos teus mistérios o amor do coração.
Que tu interpeles tua própria razão.
Tendo ânimo para teus pés palmilharem.
Que tu ouças a voz que te fala em segredo.
De quanta vida virá após o degredo.
Desejo que sejas jovem no plantar.
Maduro na ceifa, tendo o joio e trigo.
E ancião no atar boa colheita ao abrigo.
Cada idade tem sapiência ao trabalhar.
Que saibas da força que abre uma semente.
Que entre as pedras explode folhas contente.
(esta poesia faz parte da série composta aos 20 anos).
Tenho no peito um revolto mar.
E minha alma à ardentia delira.
Sequiosa nas salinas aspira,
à água pura no afã de um luar.
Sede da água pura em taças de ouro.
De fresquidão, fecunda de luz.
De alma sedenta, insossa da cruz.
Anseio ao luar, rico tesouro.
Rouqueija-me o peito de secura.
E que à sede, impregna a minha dor.
De feridas mãos, luta de amor.
Sedento desta água de doçura.
Qual a Samaritana sedenta,
com o cântaro às bordas da fonte.
De secos lábios pedia insonte,
da água que farta alma sonolenta.
É o corpo de carne a casa da alma.
Que não farta só a água do mundo.
Neste chão quer o oásis mais profundo.
Que saneia à água pura, e acalma.
Há vozes internas no meu leito,
que mentem como ebriosos lábios.
Bebo as lágrimas dos olhos sábios,
e sinto o sabor dentro do peito.
Pousam na minha febre sedenta.
Ouço-as ébias, que o seio dormita.
Pelo sono, da minh´alma aflita.
E busco a água pura que me alenta.
Oh mundo! Quantos corações áridos.
Quanta estiagem! Quanta secura.
Almas secas cheias de amargura,
que ecoam os seus verbos esquálidos.
E que a esperança estéril não seja!
Na alma não cale tão prematura.
Derrama a minha água de ventura.
Farta-me que a alma, no templo almeja.
No princípio, era o nada absoluto!
E Deus criou todos os elementos.
Macro e micro universo, resoluto.
Fizeram-se reais os firmamentos.
E em trevas, a terra estava vazia:
“-Faça-se a luz”! Para a Terra em furor.
Assim Deus criou a noite e o dia.
Fez-se os tempos, a seara, o vigor.
A terra e a água foram separadas.
Seios fecundos para as criaturas.
“-Na terra brotem: Vidas variadas”.
“-No mar consinto: Outras tantas naturas”.
E no sexto dia da criação:
“-Faça-se o homem de lodo e de uma alma”.
Semelhança e imagem, à perfeição.
Assim Deus criou, com amor e calma.
Com primazia aos seres outorgou.
De toda a terra, do céu e do mar.
“-Sementes para as searas eu dou”.
“-Braços e pernas para trabalhar”.
E assim se fez: Tudo perfeito e lindo.
Leis que regem a lógica do mundo.
Miríades de astros no céu luzindo,
para a glória do Seu reino profundo.
Mas a matéria se transforma, é instável.
E toda vida é densa e transitória.
A vida real, luzente e infindável.
É a do espírito, numa vitória.
Eu sou a terra: A mãe, a fecundidade!
Foi gerado o homem no meu ventre de lama.
Também binomia com voracidade.
Meu leite alimenta, mas meu fogo inflama.
No delírio das sementes sob a leiva.
Dou vida às árvores, e mel para flores,
sabor aos frutos, e força para seiva.
Mas sem vida, tudo abarco em meus pendores.
E veio a mulher, fecunda e divinal.
Pois sou o puro ventre de gestação.
O fundamento da vida original.
Pelo sopro de Deus, eu sou a razão.
Dou o lar: Desde as cavernas primitivas,
às hodiernas habitações que acobertam.
Dou as fontes, para sanar sedes vivas.
Sou a senda dos suores, que despertam.
Tudo brota do meu ventre desposado.
A videira, a gleba, até a própria taça.
E a mim, tudo volta, sem vida, ensecado.
A vida na morte, em meu seio entrelaça.
Sou a mãe que fomenta os filhos da terra.
O sustento que farta, a veste que cobre.
O berço de toda vida que se encerra.
Eu sou a terra, a esfera azul: Eu sou nobre!
É na velhice! Lágrimas cansadas...
Como uma taça de suor pungida.
Rugas doridas às sendas da vida.
Sangue vencido às penosas jornadas.
É o crepúsculo! Adormece os sentidos...
Vem lentamente amordaçando a vida.